VERDADES ETERNAS DAS SAGRADAS LETRAS: HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E IMPRESSOS PROTESTANTES NO NORDESTE BRASILEIRO (SÉC XIX-XX)
Dr. Sandra Cristina da Silva
UFPE/UFRN
Em meados do século XV, o continente europeu já havia sido tocado por ventos contrários à religião principal, ou seja, o catolicismo. Alguns dissidentes, ou hereges haviam sido condenados à fogueira; outros, exilados, procuravam viver sua concepção de fé em um lugar diferente, mais tolerante que parte dos países da Europa.
O que aconteceu, então, para que a Reforma Protestante, cujo marco oficial é o dia 31 de outubro de 1517, pudesse vingar num continente que já provara do doce amargor da Inquisição, das punições do Tribunal do Santo Ofício? Por que os reformadores como Lutero, Calvino e outros não foram levados à fogueira ou ao exílio como seus predecessores?
Uma das hipóteses que elencamos é que esses reformadores dos séculos XVI e XVII não foram mortos devido às redes de influência nas quais estavam inseridos. Apesar de terem sofrido perseguições e sanções (como a excomunhão de Lutero, o exílio de Calvino), não fora a proteção de alguns nobres alemães, no caso de Lutero, é provável que o mesmo tivesse sofrido punições mais severas – ou mesmo sido morto.
Um dos maiores legados da Reforma é, sem dúvida, a busca por levar os neófitos à leitura - quer das Sagradas Letras, quer de outras literaturas.
Sendo uma das prerrogativas da nova fé o acesso ao Divino por meio da Palavra, tornou-se urgente educar nas primeiras letras, ao menos, os conversos, a fim de que eles pudessem exercer o sacerdócio universal, no qual cada ser, individualmente, era responsável por sua religação com Deus.
Estudiosos constataram, posteriormente, que essa atitude para com a palavra impressa terminou por influenciar outras áreas de forma inconteste, chegando muito deles a alegar que os países que abraçaram o protestantismo tornaram-se mais desenvolvidos econômica e politicamente. Naqueles que continuaram adeptos do catolicismo ocorreu justamente o contrário.
Verifica-se, também, uma conexão direta entre a difusão do protestantismo e o desenvolvimento da imprensa. Mesmo que outros movimentos tenham se valido dela, de um modo geral é lugar-comum a percepção de que o protestantismo, em relação à imprensa, tenha se constituído o primeiro a explorar de forma eficiente o potencial da impressa como meio de acesso às massas. (EISENTEIN, 1998).
Não é a Reforma, no entanto, que inaugura os prelos; estes lhe são anteriores, tendo ela, inclusive, amparado-se neles para se estabelecer. A repercussão, o alcance e as consequências em pouco tempo, das teses luteranas, podem ter surpreendido inclusive o próprio reformador, uma vez que sua intenção primeira não foi criar uma nova Igreja e sim trazer à tona discrepâncias que existiam entre as Escrituras e o agir dos sacerdotes, da Eclésia, de modo geral.
Não apenas a nova proposta cristã se propagou como levou consigo (pela Europa e para fora dela) o texto impresso marcando, de forma perene, a nova estrutura que se propunha para a nova Igreja, em discordância com a antiga em matérias diversas como: a confissão auricular, o celibato sacerdotal, o culto às imagens e aos santos, a cobranças pelas indulgências, dentre outras questões. Porém, a grande diferença – que termina por ter eco nas demais – diz respeito à (re)descoberta da graça divina, única responsável pela salvação do fiel.
O cuidado com a escrita e a leitura, presentes desde os primórdios da Reforma, reverberou na quantidade e na qualidade dos impressos protestantes que circulavam em nações protestantes -ou naquelas que foram influenciadas, como alguns países americanos, via países europeus. Os Estados Unidos são um exemplo disto. E, o Brasil, bebeu da fonte norte-americana pois grande parte dos que implantaram o protestantismo em terras brasileiras vieram daquele país – apesar de termos ciência da permanência e atuação de europeus, principalmente nos estados do Sul e Sudeste.
Nesta pesquisa, trabalhamos principalmente a vertente do protestantismo conhecida como Presbiterianismo, tendo sua ligação direta com Calvino – o que levou os adeptos desta corrente a serem identificados como Calvinistas.
A proposta educativa de João Calvino, reformador francês, mas cuja atuação se deu a partir de Genebra, na Suíça, foi mais direcionada às questões espirituais, como a educação teológica. Porém, teve repercussões na educação primária. Aliás, as reivindicações acerca da obrigatoriedade deste nível de ensino e seu subsidio pelo Estado, é uma das consequências da Reforma cujas bandeiras foram levantadas ainda no século XVI e perpetuadas nos seguintes.
Ter mestres bem preparados para o ensino foi, talvez, a maior das preocupações de Calvino nessa área. No entanto, podemos indagar como um povo inculto em áreas diversas iria absorver as novas verdades eternas das sagradas letras? Assim era preciso, inicialmente, instruir adultos e crianças. Ou seja, se não se educasse os que receberiam as boas novas a compreensão destas estaria comprometida, da mesma forma que missão evangelística como um todo. (CAMPOS, 2000).
Podemos inferir, então, que desde o início da organização do arcabouço teológico protestante, houve o cuidado com o ensino, a educação das primeiras letras, cuja intenção era formar cidadãos, homens e mulheres, aptos para o Reino de Deus mas, também, para as lides terrenas.
A influência de algumas mulheres, neste contexto, bem como de sua relevância para o crescimento e estabelecimento do protestantismo no Brasil, particularmente da vertente presbiteriana, permitiu o estabelecimento desta pesquisa. Nosso objetivo foi identificar os modelos sugeridos ou negados ao elemento feminino, as prescrições explícitas – ou não – divulgados na imprensa confessional, no que concerne ao nordeste brasileiro, de forte influência católica, na transição do século XIX-XX.
Observando o panorama brasileiro, do século XIX, poderíamos considerar, a priori, a impossibilidade do estabelecimento de uma cultura impressa, face aos altos índices de analfabetismo que grassavam nesta margem do Atlântico. Todavia, é justamente nos Oitocentos que emergem redes de sociabilidades nos movimentos de matriz reformada no Brasil – mas também em outros países, como Portugal. Os adeptos destes movimentos erguem escolas – de primeiras letras, ao lado das igrejas – e tipografias – para divulgar seus impressos nas mais diversas regiões – disseminando, assim, a cultura protestante, eminentemente expressa no papel, nos impressos, na imprensa.
Organizam-se publicações de vários estilos: livros para adultos e crianças, novelas históricas, biografias, traduções, versões, etc, e circulam impressos nas duas margens do Atlântico - tanto no Brasil quanto em Portugal, elo facilitado pela língua comum.
Dialogando com nosso objeto de estudo, procuramos compreender os estereótipos recorrentes nos impressos confessionais verificando, ainda, se o presbiterianismo conferiu, de fato, um lugar à mulher distinto do qual ela esteve vinculada durante grande parte da história cristã ocidental, sob o viés do catolicismo.
A fim de dar suporte às fontes, apoiamo-nos teórico-metodologicamente na Nova História Cultural, de onde podemos pensar conceitos como Configuração, Interdependência (ELIAS, 1993, 1994) e Representação (CHARTIER, 1990), lançando luz em documentos até então pouco trabalhos na história da educação: os impressos protestantes.
Por identificarmos poucos estudos que investigam a relação entre os impressos confessionais e educação protestante no Brasil e, em particular no Nordeste, optamos por circunscrever nossa pesquisa aos Estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte. A escolha pelos referidos Estados justifica-se a partir da constatação da relação entre eles na difusão do protestantismo, na vertente presbiteriana – confissão à qual estavam vinculados os impressos avaliados – na atual Região Nordeste brasileira.
Os periódicos analisados foram O Século e o Norte Evangélico entre 1895 e 1920. Estes impressos circulavam no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, respectivamente, tendo sido observados sob a lente da Nova História Cultural.
Conseguimos identificar três modelos difundidos ao elemento feminino que se destacaram na proposta reformada: a educação cristã, propriamente dita, a educação doméstica, cujos referenciais de maternidade e cuidado com o próximo estavam presentes e, por fim, a educação para o espaço público, com maior ênfase para o exercício do magistério.
Recordemos que esta pesquisa tem como pretensão apresentar uma versão de educação feminina, não formal, via impressos protestantes no Brasil. Porém, não se pretende unívoca ou definitiva, e sim busca proporcionar um espaço de encontro – e desencontro, talvez – na busca humana e histórica de se dar a conhecer uma realidade, num espaço-tempo delimitado e específico.
Referências
EISENTEIN, Elisabeth L. (1998). A revolução da cultura impressa: os primórdios da Europa Moderna. Trad. Osvaldo Biato. São Paulo: Editora Ática.
CAMPOS, Heber Carlos de (2000). A Filosofia Educacional de Calvino e a fundação da Academia de Genebra. Fides Reformata, Mackenzie, 1, 1-15.
CHARTIER, Roger (1990). A história cultural: entre práticas e representações. 2. ed. Lisboa: Difel.
ELIAS, Norbert (1993). O processo civilizador: formação do estado e civilização. Trad. Ruy Jurgman. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
ELIAS, Norbert (1994). O processo civilizador: uma história dos costumes. Trad. Ruy Jurgman. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Como é difícil de achar pesquisas neste contexto, e sem dúvidas esta sua pesquisa pode ser um estímulo para novas pesquisas neste assunto. A minha pergunta é: Será que no Brasil o fenômeno do pentecostalismo, onde se acredita mais em movimentos, teria sido um fator de impedimento da cultura protestante que as igrejas tradicionais cultivavam com a publicação de vários escritos?
ResponderExcluirBoa noite, Rivelison.
ExcluirDe fato, a temática 'educação protestante' ainda é pouco divulgada, apesar de uma ampla produção acadêmica.
Com relação a sua pergunta, respondo sim e não!
Sim, porque dificultou a percepção, no século XX, do trabalho levado a cabo em especial no séc. XIX, uma vez que houve, praticamente, no caso brasileiro, uma 'massificação', uma 'homogeinização' das diversas culturas protestantes (e evangélicas).
Sim, porque terminou por contribuir para esse 'assemelhamento'.
Não, porque parte dessa invisibilidade deu-se, também, devido às dissenções, às quebras que ocorreram na transição do séc. XIX-XX, em especial no tocante a divergências entre manter ou não o apoio americano (EUA) em solo brasileiro.
Ou seja, talvez buscando 'abafar'tais conflitos, a própria tradição protestante (em especial batistas e presbiterianos histórica) terminou por confinar entre 'quatro paredes' e o caminho aberto pelo pentencostalismo aproveitou a 'deixa' e assumiu os 'holofotes'...
A falta de perseverança nos ideias educacionais do século XIX também terminou por contribuir para esse 'impedimento cultural' percebido com a mudança do investimento em grandes colégios, direcionados, em grande parte, à classe média, e nas escolas paroquiais, destinadas às primeiras letras e às classes menos abastadas.
É um tema apaixonante.
Pesquisei no mestrado e no doutorado
Dissertação: Educação de papel: impressos protestantes educando mulheres
Disponível em http://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/4203
Tese: Guiando almas femininas: a educação protestante da mulher em impressos confessionais no Brasil e em Portugal (1890-1930)
Disponível em https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/14491
Abraço forte!
Boa noite!!!
ResponderExcluirVocê fala que um dos legados da Reforma foi levar a leitura para os neófitos. A minha pergunta é: você tem ideia porque esse assunto é pouco falado na historiografia?