ENSINO DE HISTÓRIA PARA CRIANÇAS: LIÇÕES DE HISTÓRIA DO BRASIL DE JOSÉ SCARAMELI
Magno Francisco de Jesus Santos
Prof. Adj. História da UFRN
Este artigo tem como escopo compreender a escrita da história para crianças no período entre o final dos anos 20 e o início dos anos 30 do século XX, a partir da experiência de escrita de José Scarameli. Trata-se de um período marcado por fortes transformações sociais, políticas e econômicas no Brasil, bem como delimita a emergência de um dos mais importantes movimentos intelectuais da educação brasileira, com o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (SILVA, 2013).
A discussão tem como lastro documental os livros escolares de história produzidos por Scarameli, “Pequenas Lições de história pátria para a infância nas escolas” e “Lições de história do Brasil para o primeiro ano do curso primário”. São as duas principais obras de teor histórico produzidas pelo autor, voltadas para os primeiros contatos da criança com os conteúdos históricos. Essas fontes foram cotejadas pelas ideias apresentadas em outras obras do autor, como “Pequena Seleta de leitura moraes e cívicas” e “Escola Nova Brasileira”. Certamente, o conjunto bibliográfico do autor elucida acerca do pensar a construção da narrativa em articulação com as novas ideias pedagógicas.
Por meio dessas obras se torna possível problematizar as estratégias de escrita da história para crianças no Brasil ao longo da primeira metade do século XX, além de reforçar a necessidade de entendimento dos livros escolares como instrumento na difusão de culturas políticas e alicerce para a edificação de culturas escolares. Nos livros escolares de história são perceptíveis os sinais da confluência entre uma renovação da pesquisa histórica e a influência dos embates pedagógicos. Neste sentido, a história ensinada tornou-se uma zona propulsora de novos olhares investigativos, margeados pelas inquietações oriundas tanto do campo pedagógico como do histórico. Por esse motivo, os mesmos apresentam um papel relevante para as discussões acerca da história do ensino de história no Brasil. Como salienta Kazumi Munakata “o livro didático é a transcrição do que era ensinado, ou que deveria ser ensinado, em cada momento da história da escolarização” (MUNAKATA, 2016, p. 124). Por esse âmbito, os livros escolares mesmo que por si só não possibilitem a compreensão das práticas de ensino, podem contribuir para uma leitura sobre os diferentes projetos atinentes à educação.
José Scarameli pode ser visto como um dos principais nomes da educação paulista na primeira metade do século XX. Sua trajetória é marcada pela formação na Escola Normal Secundária de São Paulo, entre 1914 e 1917, pela forte atuação na defesa da renovação do ensino e por uma vasta produção bibliográfica, voltada para a sistematização das ideias da escola nova e por livros escolares.
No tocante á produção de livros escolares é interessante perceber que os mesmos eram voltados para um público específico: as crianças. José Scarameli tornou-se um exímio escritor de textos didáticos para o mundo infantil, para um público que ele mesmo reconhecia que “a tudo desconhecia”. Ressaltam-se entre essas obras, os textos com uma conotação voltada para a formação cidadã, com um teor histórico e cívico. No entender de Scarameli, discutir história implicava na discussão dos valores cívicos, na defesa de um passado e futuro da pátria.
A história emergia com um desfile de heróis que deveriam ser vistos como exemplos dignos de serem seguidos. Talvez, por esse motivo, ele tenha intitulado seus dois principais livros de história de “Lições de história pátria”. A história era o instrumento de construção do patriotismo, de fortalecimento do civismo. Além disso, era também uma lição, uma preleção acerca de como o cidadão deveria comportar-se, realizar as suas escolhas. Neste sentido, é perceptível uma confluência de objetivos entre os livros de história e dos de moral e cívica. Em ambos os casos, destacava-se o propósito formador do patriotismo.
Esses valores patrióticos permearam a escrita de seus livros escolares. O livro “O Nosso Governo”, publicado nos idos de 1928, era tido como um “esplêndido compêndio de educação cívica destinado aos candidatos dos exames dos ginásios do Estado”. Era uma obra salutar para a formação de uma cultura cívica paulista, com a valorização dos governantes nacionais e estaduais. Além disso, o livro foi adotado pelo governo do Estado de São Paulo, para a leitura das turmas do 3º ano do ensino primário e, em 1934, a terceira tinha sido publicada com uma tiragem de 15 mil exemplares.
Na capa e em vários momentos da apresentação e dos anúncios, os livros produzidos por Scarameli são apontados como obras que estavam de acordo com o programa de ensino das escolas primárias do estado de São Paulo. Neste caso, Scarameli mostrou-se está atento às normativas do campo pedagógico e às diretrizes das políticas públicas da Educação. Prova disso é a aprovação de seus livros para serem adotados pelo estado para a instrução da infância, como leitura básica ou suplementar.
O segundo ponto a ser ressaltado é o caráter pedagógico. Isso se deu em dois âmbitos. O primeiro, por meio da valorização da chamada pedagogia moderna. O livro enquadra-se nos valores defendidos pelo próprio autor acerca da introdução das ideias da Escola Nova no Brasil. Tratava-se de um livro escrito “com meticuloso cuidado e sob a orientação pedagógica moderna”. A outra questão refere-se a uma especificidade. Suas histórias foram escritas nomeadamente para crianças, pensadas como uma estratégia de inserção do mundo infantil no universo da leitura. A narrativa histórica está atrelada a uma pretensão de letramento, de alfabetização. Os elementos diferenciadores de uma obra de história para crianças eram enunciadas por meio de qualificações como “de fácil compreensão” e “fartamente ilustrado”.
Scarameli mostra-se preocupado com a possibilidade de se construir um discurso histórico fragmentado, frágil e, por conseguinte, desprovido de sentido histórico. O seu livro é apontado como inovador, o “único destinado a infância, que expõe os fatos históricos relacionando-os e mostrando-lhes a sequência lógica”. Ele busca conectar os fatos, criar uma ligação entre os diferentes episódios, atribuir um sentido à história. Neste caso, “de sorte que a História Pátria constitui um todo”. Com isso, a pátria é apresentada como um elemento natural, inquestionável, visível por meio da história e do mapa do Brasil.
Outra questão relevante é atinente à valorização de uma perspectiva federalista. Scarameli mostra o Brasil como um todo, o resultante de uma soma das partes (os estados), que por sua vez era também resultado da soma dos municípios. Por esse ângulo, a propositura descritiva do autor coaduna com a pedagogia moderna, na qual deveria partir do conhecido para o desconhecido, da parte para o todo. O Brasil seria então o resultado de um esforço federalista.
Contudo, neste processo somatório de integração, o livro expressa um elemento inquietante. José Scarameli afirma que o Brasil está na América do Sul, mas não afirma o que seria a mesma e nem elucida que o Brasil é da América do Sul. O elemento sul-americano aparece como uma questão transitória, pois até mesmo o mapa não revela a presença dos vizinhos, apresentados de modo amorfo. Neste sentido, o passado da pátria é costurado ao mundo europeu, mais precisamente a Portugal. A capa do livro já elucida essa ideia de história pátria como uma narrativa das aventuras portuguesas no mundo americano. O Brasil é tido como a continuação da história de Portugal.
O fomento ao patriotismo é tecido por meio de uma narrativa que busca defender um caráter lógico, associando a pátria, os brasileiros e o sentimento de amor. As lições de amor à pátria são sintomáticas ao longo de todo o texto. Destaca-se no texto o uso do pronome “nosso”, como instrumento de coligir um sentimento de pertença. Trata-se de nossa terra, nossa pátria, minha pátria. O coletivo que integra o Brasil e o cultua. A pátria cultuada e amada, também apresentava um retrato, a bandeira nacional.
A assertiva de José Scarameli mostra-se voltada para a construção de um sentimento patriótico. Por ordem lógica, seria praticamente impossível um brasileiro não ser patriota, não amar o seu país ou não compartilhar esse sentimento de congraçamento sistêmico. Utilizando-se de frases breves e de um raciocínio lógico, o autor envereda por uma ordem na qual não há espaço para a dúvida, para o questionamento. Nascer no Brasil seria o invólucro do patriotismo. A história pátria da escola nova proposta por Scarameli seria, paradigmaticamente, a assertiva inquestionável, inviolável e natural.
Os livros escolares de história produzidos por José Scarameli revelam questões inquietantes acerca do método de escrita da história para crianças, da apropriação da pedagogia escolanovista e do papel da história como uma lição na orientação e formação do cidadão patriota. As lições mostravam um passado a ser cantado, dos heróis-políticos que foram tomados como exemplos, bem como revelava o passado superado, o contraponto do mundo civilizado, dos indígenas imersos nas matas não mais existentes. Por fim, os livros também elucidaram um projeto de futuro, com um guia que orientava as ações no presente, por meio da defesa da resistência a ditadura de Getúlio Vargas. Os cânones da educação implementados pelo governo paulista coadunavam com os interesses em defesa de uma cultura política bandeirante, na edificação de um monumento chamado “lições de história pátria”.
Referências:
BITTENCOURT, Circe Fernandes. Abordagens históricas sobre a história escolar. Educação e Realidade. Vol.36, nº 1. Porto Alegre, 2011.
CERTEAU, Michel de. A escrita da História. Trad. Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982.
FREITAS, Itamar. História do Ensino de História no Brasil. Vol. 2. São Cristóvão-SE: EDUFS, 2010.
MONACHA, Carlos. A Escola Normal da Praça: o lado noturno das luzes. Campinas-SP: Unicamp, 1999.
MUNAKATA, Kazumi. O livro didático como indício da cultura escolar. Revista História da Educação. Vol. 20, nº 50. Porto Alegre, 2016.
RUSEN, Jorn. História viva: teoria da história III – formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: UNB, 2010.
SACARAMELI, José. Pequenas Lições de História Pátria para a infância das escolas. 31ª ed. São Paulo: Saraiva, [1926] 1951.
SCARAMELI, José. Escola Nova Brasileira: testes. São Paulo: Zenith, 1931.
SCARAMELI, José. Lições de história do Brasil para o primeiro ano do curso primário. 5ª ed. São Paulo: Brasileira, 1934.
SCARAMELI, José. O Nosso Governo. São Paulo: Zenith, 1928.
SCARAMELI, José. Pequena Seleta de leitura Moraes e Cívicas. São Paulo: Zenith, 1926.
SILVA, Débora Alfaro São Martinho da. José Scarameli:um bandeirante do ensino paulista na implementação e divulgação de uma didática e metodologia da educação nova para a infância brasileira. São Carlos-SP, 226f. Dissertação (Mestrado em Educação), UFSCar, 2013.
Boa noite, Magno!
ResponderExcluirMaravilho texto!
Você acha que seria de grande valia uma apresentação e abordagem simplificada, lúdica do nosso país em alunos de começo de ensino fundamental?
Obrigado
Jônatas Fernandes Pereira
Bom dia, Jônatas. A inserção de atividades lúdicas no ensino é uma questão que tem provocado importantes embates entre os intelectuais da Educação. No âmbito das séries iniciais do Ensino Fundamental, essa questão se tornou basilar. Nas séries finais, ainda percebemos resistências e questionamentos. Acredito que essa ação é relevante, mas deve ser pautada no equilíbrio, com a articulação entre o conteúdo e a ludicidade, o prazer em aprender e o desafio de questionar, além de enfatizar diferentes linguagens e recursos para promover o debate.O texto ou a aula podem ser atrativos e, ao mesmo tempo, desafiadores, levando o aluno a questionar e investigar.
ExcluirObrigado,
Magno Santos
Eu que agradeço.
ExcluirObrigado
Jônatas Fernandes Pereira
Olá, Magno!
ResponderExcluirQue bom lhe encontrar por aqui, parabéns pelo artigo. Sensacional!
Você abordou em seu texto as questões que davam ritmo ao Ensino de História nos anos 20 e início dos anos 30, e você toca num ponto interessante que acho que ainda não superamos completamente, embora já em 2017, ou seja, um ensino que muitas vezes apresenta uma visão cristalizada do indígena, como sujeitos que figuram no restrito espaço da colonização, sem que se proponha aos estudantes da Educação Básica reflexões mais profundas acerca da atual condição indígena, suas causas e reivindicações.
Então, como você percebe isso falando enquanto professor no Ensino Superior? Você acha que os cursos de formação de professores, especialmente na área de história, têm dado conta de preparar profissionais que atendam às especificidades previstas na Lei 11.645 ou ainda estamos formando professores que seguem o compasso de José Scarameli em seus livros didáticos?
Abraço,
Vânia Cristina da Silva.
Olá Vânia, é um prazer reencontrá-la.
ExcluirEssa questão apontada por você, sobre as discussões acerca das representações dos povos indígenas no ensino de História é basilar. Estou lecionando a disciplina Ensino de História e Materiais Didáticos e esse tem sido um tema recorrente. Percebo que existe um empenho em romper com esse modelo interpretativo, muitas vezes pautado em distorções, mas ao mesmo tempo fica visível a dificuldade em romper com os estereótipos. Uma estratégia que utilizo é a análise de materiais produzidos pelas comunidades indígenas, para a compreensão da leitura de mundo, bem como a análise de livros escolares de outros períodos, para percebermos como a cultura histórica também é construída pelas representações difundidas nos livros escolares.
Grande abraço,
Magno Francisco de J. Santos
Muito bom o texto, parabéns. Gostaria de fazer uma pergunta de ordem metodológica. Quais os cuidados que o pesquisador da história da educação deve ter ao analisar narrativas historiográficas de cunho didático, produzidas no final do XIX e nas primeiras décadas do XX?
ResponderExcluirJeane Carla Oliveira de Melo