O ENSINO DE HISTÓRIA E A DITADURA MILITAR NO SERTÃO ALAGOANO ATUAL
Luiz Santos Silva
Especialista em História do Brasil, UCAM
Prof. Faculdades Montenegro
Prof. Faculdades Montenegro
O presente texto é parte de um projeto de pesquisa cujo tema “A Ditadura Civil e Militar e as Representações de Estudantes, Jovens e Adultos de Escolas Públicas no Sertão Alagoano”, surgiu a partir da minha própria experiência enquanto professor de história da rede pública no sertão de Alagoas, bem como também que o tema ditadura militar já foi objeto de investigação em meu trabalho monográfico intitulado: As Origens do Golpe Civil-Militar de 1964, apresentado ao Curso de História da Universidade Estadual de Alagoas no ano de 2012. Ao me inserir na rede regular de ensino de municípios (São José da Tapera e Poço das Trincheiras) Estado de Alagoas, e mediar a temática nas aulas de ensino fundamental e médio, passei a questionar: o que eles, jovens e adultos matriculados nas series/anos da educação básica, sabem a respeito deste assunto?
A delimitação espacial, ou seja, o sertão de alagoas, decorre da necessidade do ensino de história está pareado com a realidade presente, que Segundo Bittencourt:
“a história do “lugar” como objeto de estudo ganha, necessariamente, contornos temporais e espaciais. Não se trata, portanto, de proporem conteúdos escolares da história local, de entendê-los apenas na história do presente ou de determinado passado, mas de procurar identificar a dinâmica do lugar, as transformações do espaço, e articular esse processo às relações externas, a outros “lugares” (BITTENCOURT, 2004, p.172).
Sendo assim, por ser professor da localidade citada, comecei a questionar: até que ponto a temática ditadura civil e militar possui uma relação com o contexto social dos estudantes das escolas públicas de educação básica alocadas no sertão alagoano? Como estes estudantes têm construído ao longo de sua trajetória escolar representações que descortinem o que foi esse sistema político repressivo para o Brasil e para o estado de Alagas? Como eles veem nas aulas de história as representações sociais explicitadas nas páginas dos manuais didáticos acerca da ditadura civil e militar? Quais as dificuldades deles em entender os conteúdos de história que marcam esse período? A ditadura civil e militar é problematizada na sala de aula com que frequência e que recursos didáticos os docentes fazem uso para tornar mais profícuo os encontros das aulas de história? E quais representações e consciência histórica nacional são obtidas através do ensino de História como forma de proporcionar uma visão crítica nos jovens na atualidade a respeito da realidade político-social passada?
Neste cenário tomo como referencial teórico, um conceito do historiador Carlo Ginzburg: a Circularidade Cultural. Este conceito parte do princípio que a cultura, o conhecimento, navega tanto dos espaços sociais letrados para os setores sociais populares e vice versa. Esse trabalho investigativo parte da compreensão das vivências e representações sociais e culturais de sujeitos para o entendimento de um contexto mais amplo.
O problema central desta investigação é: até que ponto o ensino de história na educação básica pode ser referência para adolescentes, jovens e adultos estabelecerem relações com a memória histórica acerca da ditadura civil e militar instituída no Brasil nos anos de 1964 a 1985.
Ao observar in loco (conversas com eles nas aulas e reuniões com os pais) o público objeto de pesquisa deste pré-projeto, trata-se de sujeitos moradores de diversas cidades do sertão de Alagoas. Estudantes estes que em sua maioria convivem no meio rural, oriundos de famílias carentes, que apesar da precária estrutura econômica social, estão inseridos em realidades locais políticas e educacionais que influenciam na forma como eles constroem suas representações históricas sobre os acontecimentos políticos do presente.
O que me levou a mais inquietações diante do cenário que eles estão inseridos é desvelar suas relações e ideias da realidade local com o contexto nacional atual nos discussões políticas do tempo presente.
A historiografia e o ensino de história na contemporaneidade têm sido marcados por uma diversidade e pluralidade de temas, enfoques, abordagens teóricas e metodológicas acerca dos seus objetos. Nesse sentido, inserimos esta pesquisa nesse mosaico de novos olhares lançados sobre os objetos, nesse entrelaçado de novos saberes e novas abordagens que privilegiam o diálogo com os sujeitos e os objetos da história que põe em cena a história nacional e o ensino-aprendizagem de história nos espaços escolares.
O segundo ponto a ser destacado, é a contribuição a sociedade para a discussão no que se refere a construção das representações históricas da juventude estudantil sobre a ditadura militar, sobre o que “realmente” eles entendem sobre essa fase da história brasileira que não pode ser esquecida pelas gerações atuais nem tão pouco deixar de ser objeto de estudo não só do ensino, mas, principalmente da aprendizagem. Nesse sentido, a pesquisa visa debater o que estes jovens entendem sobre o tema estudado no ensino médio.
Assim, propomos uma ponte, um diálogo estreito entre o Ensino de História –a ditadura militar - e a aprendizagem desta História por parte dos alunos, cujas fronteiras são bastante intrínsecas, porém, se não entendidas de forma adequadas podem gerar anacronismo e esquecimentos históricos irreparáveis a sociedade atual.Para tanto, investigaremos a postura histórica e teórica também dos professores das escolas pesquisadas, suas análises da ditadura, que tipo de escola histórica eles seguem nas aulas e as ideologias compartilhadas nas aulas com os estudantes.
Nesses saberes imbricam-se a escrita da história como construção de um “real”, e o entendimento das “representações” atuais como realidade que não podem ser dissociados, cuja materialização é possibilitada pelos debates construídos através da narrativa em sala de aula.
Com isso, procuraremos entender a ditadura militar brasileira a luz da historiografia, a grande quantidade de publicações, teses, livros, artigos, documentários de historiadores, sociólogos e jornalistas a respeito dos governos, ações e acontecimentos durante todo o período em que vigorou o regime ditatorial, produziram também muitas versões sobre esta temática. Sendo assim, analisaremos as ideias do historiador Jorge Ferreira afirma que, em consulta preliminar constatamos que há linhas historiográficas defendendo que:
“para a direita civil-militar que tomou o poder em 1964, Goulart era um demagogo, corrupto, inapto e influenciado por comunistas. Motivos suficientes, portanto, para o golpe. Para as esquerdas revolucionárias e a ortodoxia marxista-leninista, o presidente era um líder burguês de massa, uma liderança cuja origem de classe marcou seu comportamento dúbio e vacilante, com vocação inequívoca para trair a classe trabalhadora. Portanto, sua origem de classe teria permitido o golpe. Além disso, segundo muitas interpretações, tratava-se de um populista”. (FERREIRA E DELGADO, 2003, P. 345 ).
Alguns estudiosos como, por exemplo, Thomas Skidmore, defende que foram os militares os protagonistas articuladores de todos os passos da conspiração que vinha sendo programada desde o final da Era Vargas, e que no governo de João Goulart foi o momento certo para organizarem o levante contra o poder constitucional.
Procuraremos investigar como suporte teórico sobre a ditadura militar, as do cientista político René Dreyfus, apresenta um longo trabalho com provas irrevogáveis que foi a burguesia empresarial brasileira associada a multinacionais que influenciaram os militares no processo de tomada do poder que vinha sendo orquestrado pela burguesia nacional desde meados da década de 30, e assim articularam a derrubada do poder democrático em 1964.
Com isso é preciso entender também como o ensino de história veio se desdobrando até os dias atuais. É notório o debate ocorrido no Brasil, após 1985, ou seja, o período de redemocratização do país, a respeito da necessidade de se revitalizar o Ensino de História no Brasil, rompendo com os vícios implantados no período do Regime Militar (1964-1985).
A partir de 1964, com o golpe de Estado e a implantação da ditadura militar no Brasil, o ensino de História manteve seu caráter estritamente político, pautado no estudo de fontes oficiais e narrado apenas sob o ponto de vista factual O ensino de História não tinha espaço para análise crítica e a interpretação dos fatos. Neste contexto, o Estado organiza um programa para controlar as instituições escolares, visando legitimar os interesses político-ideológicos do regime. Com a lei 5692/71 o ensino centra-se numa formação tecnicista, voltada para a preparação de mão de obra.
As disciplinas das ciências humanas são tratadas de modo pragmático, legitimadora do modelo de nação vigente. No 1º grau a História e a Geografia foram condensadas nos Estudos Sociais, dividindo a carga horária com a Educação Moral e Cívica. Com essas medidas o Estado visava um maior controle ideológico sobre o corpo docente. O ensino de História tinha como prioridade ajustar o aluno ao cumprimento dos seus deveres patrióticos.
Referências bibliográficas
BERNARDO, Susana B. R. .O Ensino de História nos primeiros anos do Ensino Fundamental: o uso de fontes. Dissertação (Mestrado em História e Ensino).
BITTENCOURT, Circe M. F. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004.
CAINELLI, Marlene. Educação Histórica: perspectivas de aprendizagem da história no ensino fundamental. Educar; Curitiba, Especial, Editora UFPR: Curitiba, 2006.
DREIFUSS, René Armand. 1964,A Conquista do Estado – Ação Política, Poder e Golpe de Classe. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1981
ENELON, Déa Ribeiro. A Formação do profissional de História e a Realidade do Ensino.
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GINZBURG, Carlo;Prefácio/Sinais: raízes de um paradigma indiciário/ Ticiano, Ovídio e os códigos da figuração erótica no século XVI. In: Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Cia. dasLetras, 1989.
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REIS, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
Olá Luís. Algumas dúvidas: sobre o público que terá suas representações analisadas, quantos serão entrevistados e como funcionarão estas entrevistas? Quantos alunos e quantos docentes?
ResponderExcluirOlá Gildevan,
ResponderExcluirAs entrevistas serão por amostragem: 5 alunos por turma de terceiro ano; 2 professores de cada escola; sendo que serão escolas que abrangem 4 Regionais de do sertão de Alagoas, umas 30 escolas.
Obrigado Luiz, e parabéns pelo texto!
ExcluirLuiz, parabéns pela exposição do texto!
ResponderExcluirAssim como Gildevan,´problematize melhor seus referenciais teóricos a respeito da historia do tempo presente, da história oral enquanto metodologia de ensino e pesquisa e sobre a cultura escola na qual se insere os sujeitos de sua pretensa pesquisa.
Abraços,
Prof. Antônio
Olá professor Antônio,
ResponderExcluirmuito obrigado pelas dicas, farei isso sim.
Esse texto foi totalmente modificado após eu ter submetido a uma banca de Mestrado-UFS....