Luiz Henrique S. Moreira
UNESPAR/União da Vitória
O estudo da história da educação é dado como relevante porque a partir dele pode-se perceber a relação de várias sociedades com a educação em várias épocas distintas, possibilitando uma reflexão mais ampla da sociedade, o porquê e o para quê se educa, abrindo para os questionamentos de como as sociedades contemporâneas se relacionam com a Educação. E em relação à Grécia se torna possível perceber como foi criado um ideal de educação e pedagogia que ainda é dado como modelo contemporaneamente, porém, antes de tratar diretamente da aretêe da paidéia na Grécia Antiga, se torna necessário contextualizar a mesma no período, ao qual se refere, para que se torne minimamente possível perceber as particularidades, motivações e dificuldades do sistema de formação grego.
Localizada na Península Balcânica, que apresenta um relevo acidentado e montanhoso, a agricultura revelou-se difícil na Grécia, o que de certa forma fez com que os gregos passassem a habitar as ilhas próximas, em busca de locais que possibilitassem sua subsistência. Se espalhando pelas costas dos Mares Negro e Mediterrâneo atingindo o sul dos territórios atualmente conhecidos como Itália e França, e atingindo também o Norte da atual África.
Segundo Jaeger (1995) toda cultura superior surge a partir da diferenciação de classes sociais, e com os gregos não foi tão diferente, a história da formação grega começa com o surgimento de um ideal definido de homem superior. Muitas cidades foram fundadas na Grécia sob o conceito de pólis, sendo cada cidade-estado independente, contendo seus próprios hábitos e regulamentos. No entanto, devido a muitos aspectos em comum, como a língua e esse ideal de homem superior em relação aos demais povos, os gregos passaram a enxergar a si mesmos como um só povo, o que originou algo que seria possível de se traduzir como um sentimento nacionalista de pátria.
Devido às numerosas diferenciações que haviam de acordo com cada cidade-estado grega, no presente texto, será usada a cidade de Atenas como base para um aprofundamento da educação e formação na Grécia Antiga. Justifica-se tal escolha devido a mesma ser considerada como o centro cultural da Grécia Clássica, principalmente ao período que se refere, período em que Péricles esteve a frente do poder (463-529 a. C.). Atenas contava basicamente com três classes sociais: os eupátridas, conjunto de homens adultos considerados verdadeiros cidadãos e os únicos que detinham direitos políticos para participar da democracia (Lobato, 2001), as mulheres e crianças por mais que descendentes diretas dos mesmos não obtinham tais direitos; os metecos eram os estrangeiros que além de não deterem direitos à participação da vida política da cidade estavam proibidos de arrecadar terras, eram obrigados a prestar serviço militar e a pagar impostos para viver em Atenas; e os escravos que eram a maioria da população, a escravidão podia ser dada por captura, guerra ou até por pagamento de dívidas,
Os escravos eram considerados propriedades do seu senhor, embora houvesse leis que os protegiam contra excessos de maus tratos. Atenas era um Estado que garantia a democracia da minoria às custas da escravidão da maioria. (LOBATO, 2001, p. 23)
Porém deve-se ressaltar que, se abordados como uma classe social, os escravos não chegavam a ser a camada mais baixa da sociedade como aponta Vidal-Naquet (1989, p. 88)
Na sociedade homérica ou mais exatamente naquilo que chamamos tão impropriamente por esse nome, na sociedade evocada e imaginada pelos poemas homéricos, há certamente escravos, mulheres raptadas, prisioneiros de guerra, escravos adquiridos por um embrião de comércio, mas o escravo não é o único em baixo da escala social e nem está tão mal situado. Muitos disseram e M.I. Finley mostrou melhor do que ninguém que o miserável por excelência não é o escravo: é o trabalhador agrícola que só dispõe de seus braços, não tendo qualquer ligação permanente com o domínio, o oikos, é o tete. Em suma, tanto na sociedade homérica quando na micênica, existe toda uma gama de estatutos entre o homem livre e o escravo.
Os gregos se diferenciaram dos demais povos antigos por serem os primeiros a buscar explicações racionais e que pudessem ser comprovadas, em detrimento com as explicações míticas, para que pudessem progredir como seres humanos. Em Atenas a educação formal era voltada somente para os meninos e as meninas eram obrigadas a aprender os ofícios domésticos e os trabalhos manuais com as mães. Acreditava-se que se cada menino pudesse desenvolver integralmente suas aptidões, se tornariam bons cidadãos (Lobato, 2001) e a cidade estado se tornaria a mais forte.
Um garoto ateniense entrava na escola aos seis anos e ficava sob os cuidados de um pedagogo que ensinava aritmética, literatura, música escrita e educação física; o aluno decorava muitos poemas e aprendia a fazer parte dos cortejos públicos e religiosos. (LOBATO, 2001, p.25-26)
Comumente ao se abordar a formação e educação na Grécia Clássica trata-se somente da paidéia, porém não se pode utilizar a história da palavra como um fio condutor para estudar a origem da formação grega, já que a mesma só aparece no século V com Ésquilo. Para se remeter à formação nos tempos mais antigos têm-se o conceito de aretê, cuja não se tem um equivalente exato à palavra em língua portuguesa, mas pode-se traduzir a mesma com algo quase correspondente à "virtude", que carrega o ideal de homem superior grego no qual os meninos deviam se espelhar (JAEGER, 1995, p.25).
Tratar de educação e formação na antiguidade grega sem abordar os poetas é impossível, pois estes são os primeiros educadores, não só de sua época já que as influências dos mesmos transpassa gerações. Ser culto na antiguidade era saber Homero de cor e poder citá-lo em qualquer ocasião. Nos poemas homéricos, o testemunho mais remoto da antiga cultura aristocrática helênica, é possível perceber tanto como o mundo aristocrático da Grécia era formado, quanto o ideal de Homem capaz de manifestar a aretêatravés de sua superioridade, nobreza, qualidades físicas e espirituais: como a bravura, a coragem, a força e a destreza do guerreiro, a eloquência e a persuasão, e, acima de tudo, a heroicidade. Basicamente para exprimir a aretê o homem deveria manter o domínio de si, controlando seus instintos, desejos e paixões através da razão. Para moldar o corpo tinha-se a ginástica e para moldar o espírito tinha-se a música, a leitura e o recitar das obras dos grandes poetas (LOBATO, 2001, p. 27-28). Além de formar um homem harmonioso que adquiriu o domínio de si, o programa de formação na Grécia tinha como finalidade formar um cidadão fiel ao Estado, que compreendesse que o mesmo só é o que é porque vive na pólis e sem ela não é nada.
Durante os séculos V e VI a. C a cultura grega sofreria alterações devido ao surgimento de novos grupos sociais ligados ao comércio, pode-se dizer que se trato do momento em que o ideal da aretê sai de voga, surgindo o ideal de educação conhecido como paidéia. Não se pode traduzir o termo apenas como educação, já que esse ideal de formação pretendia formar o homem em suas várias esferas (social, política, cultural e educativa) e se tratava de uma formação muito mais crítica em relação ao saber religioso e mítico se comparada com a aretê.
Enfim, a Paidéia, é a busca do conhecimento do homem, de forma individual, para que este possa interferir na organização política e social da pólis, a idéia principal é colocar o homem a par de todo o conhecimento necessário para a harmonia consigo próprio e com a comunidade ao seu redor. (LOBATO, 2001, p. 32)
Basicamente, ao se comparar a Arete e a Paideia, nota-se que a aretê tinha um ideal de herói para moldar os meninos, ideal esse embasado nos heróis dos poemas como Ulisses e Telêmaco, enquanto a paidéia explora mais a racionalidade e está mais ligada ao real por assim dizer, o objetivo não era mais formar meninos heróis igual a Academia Prometheus retratada na animação Hércules produzida pela Walt Disney em 1997, tinha-se o objetivo de se criar um ser autônomo, dotado de uma identidade cultural e histórica.
Referências bibliográficas
JAEGER, Werner. A Formação do Homem Grego. 1.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
LOBATO, Vivian da Silva. Revisitando a Educação na Grécia Antiga: A Paidéia. 2001. Trabalho de Conclusão de Curso (Pedagogia) - Universidade da Amazônia, Belém, 2001.
VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Trabalho e Escravidão na Grécia Antiga. Campinas, SP: Papirus, 1989.
Olá! Boa noite! Acabo de ler seu trabalho e, antes de qualquer coisa, gostaria de parabenizá-lo por seu texto e as discussões que ele suscita.
ResponderExcluirGostaria também de colocar algumas perguntas/observações para que pudéssemos proceder a um debate: Concordo que a poesia de Homero é a "primeira educação" que todo menino grego recebe e, neste sentido, considero seu texto muito feliz em retomar este ponto; mas parece-me que nas linhas finais há como que uma brusquidão na mudança de modelo: sai a areté e entra a paideia, sob os auspícios da Polis, com "p" maiúsculo e todo seu contexto sócio-econômico-político-cultural. Entretanto, podemos ver, por exemplo, no discurso fúnebre de Péricles segundo Tucídides (e aqui não entro no mérito do quão "fiel ao original" fosse o relato do historiador) que o elogio feito aos soldados mortos em combate pela democracia, justamente no auge da democracia ateniense, que é a "era de Péricles" se dá em termos heróicos. O que se elogia é sua areté, não mais em combate singular, como em Homero, mas uma areté que se conjuga com uma experiência de comunidade ou busca do bem comum. Não lhe parece que, sendo a referência de Homero tão forte e quase impossível de ser eliminada de todo, sob o risco de subverter um código cultural de base, a polis antes se apropria dela, re- significando-a, que a elimina totalmente?
Com um cordial abraço,
Jorge S. Barbosa Junior.