ESBOÇOS DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL COLÔNIA E IMPÉRIO
José Vando Moreira da Silva
Especialista em História da Cultura Afro-Brasileira pela FTC
Professor dos Cursos de Pedagogia e Serviço Social da Faculdade Maurício de Nassau em Caruaru - PE
Esboços da Educação Superior no Brasil Colônia e Império
Como sabemos o Brasil foi um país formado numa miscelânea de raças com seus costumes e tradições, assim, nativos indígenas, europeus e negros deram origem a um país que viveu durante quase todo período colonial sob o domínio português que empreendeu uma forte colonização de exploração marcada pela escravidão de índios e depois de negros. Um contexto assim, marcado por uma exploração muito forte, foi necessário para que no Brasil a sociedade patriarcal se formasse aos moldes europeus católicos que apresentava uma educação totalmente excludente para mulher e fortemente selecionada, não por questões de conhecimento, mais por questões sociais e financeiras.
No início da colonização do Brasil a educação, embora não sendo uma prioridade para Portugal, foi ligado muito fortemente a ação da Igreja Católica. Em 1549 na época do primeiro governador geral do Brasil, Tomé de Sousa, os jesuítas iniciaram seu trabalho que segundo Aranha (2006, p.140) “ promoveram maciçamente a catequese dos índios, a educação dos filhos dos colonos, a formação de novos sacerdotes e da elite intelectual, além do controle da fé e da moral da nova terra”. Era então uma educação que transpassava os púlpitos e as missas e formavam didático e moralmente o entendimento das pessoas. Um reflexo muito forte dessa educação nos é mostrado hoje na sociedade brasileira com uma sociedade em grande parte patriarcal, católica e com moral muito tradicional.
Entre os anos 1749 a 1808 observamos uma fase marcada pela expansão do ensino secundário nos colégios, uma vez que de acordo com Aranha (2006, p.191) “o governo de Portugal não permitia a criação de universidades na colônia”. Desta fase da História da Educação do Brasil vale salientar aqui as reformas realizadas a partir do governo do marques de Pombal que logo em 1759 expulsa os jesuítas do Brasil e com isso passa a rever a situação do ensino na colônia. De forma concreta em 1772 o governo pombalino implanta o chamado ensino oficial e foi desmembrando o sistema educacional imposto pelos jesuítas. Assim, como primeiras e relevantes ações desse período para educação no Brasil:
“ ... desapareceu o curso de humanidades [da época jesuíta], ficando em seu lugar as “aulas regias”. Eram aulas avulsas de latim, grego, Filosofia e retórica. Ou seja: os professores, por eles mesmos, organizavam os locais de trabalho e, uma vez tendo colocado a “escola” para funcionar, requisitavam do governo o pagamento pelo trabalho do ensino. ” (Ghiraldelli Jr. 2009, p.27)
Embora o esforço tenha sido relevante o governo de Pombal, não houve uma mudança rápida na pratica educacional na colônia, dado o fato dos valores e moral jesuíta serem muito fortes na sociedade. Ainda assim como sugere Aranha (2006, p.193) “foram lançadas sementes de um novo processo que iria amadurecer e aos poucos a partir do século seguinte.
O ano de 1808 chega então com um quadro turbulento na Europa. Napoleão Bonaparte mediante uma política de expansão e de afronta a Inglaterra, vista como potência da época, mexeu com o tabuleiro governamental e político da época, chegando também a alterar a colônia. Turbulências mais especificamente restritas a Portugal, levaram o rei Dom João VI tomar uma medida, que na análise de muitos historiadores beiram os extremos da loucura e da coragem, de transferir a Coroa para colônia. E assim se deu a aventura da Família Real Portuguesa amparada pela marinha britânica, viajando em condições degradantes até sua chegada na colônia que embora apresentasse uma formatação territorial quase que idêntica a atual, não possuía uma formação nacional muito forte.
Dom João VI chega então na colônia onde havia “ uma população analfabeta, pobre e carente de tudo. Na cidade de São Paulo, já no governo de Dom João VI, apenas 2,5% dos homens livres em idade escolar eram analfabetos” (SKIDMORE, 1998 apud GOMES, 2007, p. 123). E interessante questionar aqui os motivos que levam esse momento a ser um marco na História da Educação Brasileira com o surgimento das atividades do Ensino Superior no Brasil.
Após chegar aqui Dom João VI além de abrir os portos para as nações amigas e organizar várias instituições governamentais, deu início a vários cursos profissionalizantes nos níveis médio e superior, marcando assim os primórdios na educação superior no país. Dessa forma o ensino é organizado em primário (a chamada “escola de ler e escrever”), o secundário (mantendo o esquema de “aulas regias”), e o superior sendo apresentado através de uma ligação muito forte com a defesa militar e para atender os interesses da Corte aqui instala. Assim, cursos ligados a medicina surgiram na Bahia e no Rio de Janeiro. Cursos como de Engenharia surgem no junto instituições militares e cursos avulsos de economia, química e agricultura também aparecem nessa época.
A fase imperial no Brasil que aqui agora vamos tratar, inicia-se após a independência de Portugal. Processo altamente ligado a um conflito direto entre as elites coloniais e metropolitanas, liderada pelo filho desafetuoso de Dom Joao VI que precisou voltar para Portugal dado o término da dominação napoleônica e uma crise que ameaçou a perder a coroa portuguesa para grupos da elite metropolitana.
Dom Pedro I então assume o governo do país e apresenta uma Constituição em 1824, que segundo Junior (2009, p.28) “continha um tópico especifico em relação a educação. Ele inspirava a ideia de um sistema nacional de educação. Segundo ele, o Império deveria possuir escolas primarias, ginásios e universidades.”. Infelizmente, esse plano manteve-se muito bonito no papel, pois na prática problemas como falta de professores e de encaminhamentos educacionais mais amplos não ocorreu de fato.
Em 1827 surge em São Paulo e Recife dois cursos jurídicos que em 1827 passam a ser faculdades. Nessas, observamos então uma preocupação em investir nas carreiras chamadas de liberais (advogados, e mais tarde médicos e engenheiros), e assim se manteve em grande parte do império.
Em fins da época imperial, é importante destacar a força da corrente positivista que ganhará muita força no pensamento europeu com a figura de August Comte que segundo Filho (2005, p.169) pregava “o império da ciência, quando tudo teria que ser comprovado cientificamente”. Dessa forma o ensino brasileiro no império ficou longe de ser um projeto educacional público e voltou-se apenas para um sistema marcado por exames e provas. Nomes como Benjamin Constant, Miguel Lemos e Teixeira Mendes repercutiram de forma ampla o positivismo na Pedagogia.
Referências bibliográficas
JUNIOR, Paulo Ghiraldelli. História da Educação Brasileira. 4ª Edição. São Paulo: Cortez,2009.
FILHO, Geraldo Francisco. História Geral da Educação. 2ª Edição. Campinas: Editora Alínea,2005.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação e da Pedagogia: Geral e do Brasil. 3ª Edição. São Paulo: Moderna,2006.
GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca. 1ª Edição. São Paulo: Editora Planeta do Brasil,2007.
Olá
ResponderExcluirPrimeiramente parabéns pelo trabalho.
Se possível for, poderia abortar os motivos dos quais não eram permitido a implementação do ensino superior na colônia?
Por: JONATHAN RAFAEL CARDOSO GUIMARÃES
Olá colega! Muito obrigado por sua pergunta!
ExcluirPoderíamos aqui elencar muitos pontos para o atraso ou não interesse para implementação do ensino superior na colônia.
Discorrendo sobre a questão podemos pontuar situações como: foco do ensino superior voltado para metrópole (Portugal), o foco do ensino na colônia dirigido pelos jesuítas não contemplava o Ensino Superior, entre outros.
Poucos altores vão focar na perspectiva de que não interesse da metrópole em bem educar a colônia, afinal de contas, quantos mais sem educação melhor é para manipular, foi assim desde os tempos que o ser humano reconheceu o poder que a educação pode exercer numa sociedade.
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ResponderExcluirPrezado, boa noite! Gostaria de parabeniza-lo pelo trabalho e destacar que muito me interessou porque minha dissertação de Mestrado guarda relação com os temas aqui abordados. Gostaria de saber se ao longo da pesquisa que desenvolveu para a confecção deste e de outros trabalhos, foi possível notar uma tendência a formar, nos cursos de Direito do Brasil Imperial, uma elite política preparada para assumir o poder e formadora de opinião da sociedade em geral, ao invés de forjar profissionais comprometidos com a atuação nas searas jurídicas propriamente ditas. Obrigada. Ana Carolina de Matos Abdulmassih Vessi.
ResponderExcluirObrigado por ter parabenizado!
ExcluirEmbora o recorte do meu TCC que está presente neste artigo tenha tido uma finalidade voltada à pedagogia, posso afirmar que dentre as leituras, encontro em ARANHA (conforme você pode encontrar nas referências) um vislumbre com relação a sua questão no que se refere a formação de profissionais preparados para servir inicialmente uma elite.
Olá José tudo bem ? Achei muito interessante o seu texto =). Trabalhei com o Ensino Superior no meu TCC mais na contemporaneidade,e, busquei na formação histórica do período Imperial compreender um pouco do nosso passado em relação a Universidade no presente.
ResponderExcluirA minha pergunta é a seguinte: Na sua opinião porque na maioria dos países da América Latina tivemos a formação de Universidades desde o período colonial e no Brasil essa formação foi tardia?
Abraços,
Bruna C M Rodrigues
Possivelmente essa questão está ligada a metrópole. Como Portugal foi nossa "querida" metrópole, observamos que não houve interesse muito efetivo de estruturar um Ensino superior, afinal de contas o Brasil era apenas um deposito de valiosas matérias-primas que enriquecia Portugal. Com a chegada da Coroa aqui no Brasil foi quase que consequente a criação de universidades, pois agora seríamos a sede da metrópole.
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ResponderExcluirGostei bastante do texto. Muito relevante para repensarmos nossa prática enquanto sujeitos históricos, bem como a educação como relevante nesse processo.
ResponderExcluirMinha questão seria: Qual o desafio para o ensino hoje sobre tudo no que se refere ao Ensino EAD?
Hoje vivemos um momento de grande facilidade de acesso ao Ensino Superior, não apenas por questão de política pública ou por ação mercadológica, mais também pelo reconhecimento de métodos como a Educação a Distância que impulsionam o acesso de novos estudantes. Porém há no Brasil um desafio muito grande, pois inda há uma grande parcela da sociedade longe do Ensino Superior de qualidade.
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