ANTIGUIDADE TARDIA OU ALTA IDADE MÉDIA: O ENSINO DA DIVISÃO HISTORIOGRÁFICA EM UMA PERSPECTIVA CONTEMPORÂNEA
Gabriel I. Covalchuk
UNESPAR / União da Vitória
A história é tradicionalmente dividida em quatro períodos, História Antiga, História Medieval, História Moderna e História Contemporânea, essa divisão foi chamada de quadripartite. Para ensinar sobre essa divisão é necessário problematizá-la, pois, ela não é neutra, organiza-se pela escolha de marcos históricos, o que foge da imparcialidade, pois, trata-se de uma escolha influenciada por valores morais e políticos, de crenças, ou seja, a divisão quadripartite é uma forma de narrar a história do mundo a partir de um determinado ponto de vista, pois como podemos perceber, todos se referem a acontecimentos relacionados diretamente à história da Europa Ocidental, como por exemplo a queda do Império Romano do Ocidente; a Tomada de Constantinopla, a Revolução Francesa.
Sabendo que todas essas divisões são estreitamente políticas e marcadas por rupturas, buscaremos neste texto mostrar que pode-se ensinar a temporalidade histórica utilizando outros conceitos, como discutiremos a seguir. Este debate pode ser levado em todas as quatro divisões, mas focaremos, apenas em uma (Antiguidade Clássica e Idade Média) entre ambas existe uma nova divisão historiográfica, vista como um período transitório, e marcado por transformações, sendo a principal delas o cristianismo. O que até então tinha ideia de barbárie e de trevas e acaba perdendo seu espaço no ano 1950 com o termo Spätantike, que ainda é impreciso, mas serve como base entre 300 d.C. e 600 d.C., pois os historiadores e outros eruditos ainda não chegaram a um consenso.
Deve-se explicar que o conceito de “Antiguidade Tardia” está ligado a transição da civilização ocidental, pois deixa de ser a civilização clássica greco-romana, mas ainda não possui a configuração de civilização medieval, também ocorrendo dentro desse período a vulgarização do latim, mudanças nas artes e na literatura e a propagação do cristianismo fazendo com que muitos adorassem apenas um Deus, entendido como onipotente, onipresente e onisciente e que ama a todos independente do status social, etnia ou descendência.
Esse termo é mais aceito como o período que tem início com o declínio do Império Romano do Ocidente, a partir do século III, e se estende até a conquista islâmica e a ação do Império Bizantino na refundação da Europa Oriental. Na historiografia contemporânea tem se desenvolvido com maior evidência esse conceito, negando aquele preceito de “ruptura total” imposto pelo quadripartite da história. Buscamos então ensinar a partir das transformações ocorridas nesse espaço de tempo, um período ímpar na História, mas que não é Antiguidade Clássica e nem a Idade Média.
O uso do termo Antiguidade Tardia sugere, então, que há uma continuidade de características sociais e culturais da Antiguidade Clássica que permanecem presentes até a Idade Média. Defendendo essa visão Waldir Freitas Oliveira, conclui seu ponto de vista utilizando uma frase:
Em 1997, o historiador francês Henri-Irénée Marrou, recentemente falecido, deu como título á sua obra derradeira Decadência Romana ou Antiguidade Tardia? “Nela declarando que ‘‘o que importa é que o termo Antiguidade Tardia receba, de uma vez por todas, uma conotação positiva”. (OLIVEIRA, 1990, p. 5)
É fundamental a compreensão do período da Antiguidade Tardia para que se possa tirar a ideia de idade das trevas, que foi considerado por muito tempo um período catastrófico, marcado pelas invasões violentas de numerosos povos pagãos de origem nórdica ou oriental: hunos, burgúndios, godos e vândalos, francos, alamanos e saxões, vikings.
Ora, a instauração dos reinos governados por líderes estrangeiros no âmbito das regiões outrora governadas por agentes do Império Romano não redundaram necessariamente numa ruptura. Conforme esta perspectiva, aqueles reis bárbaros foram continuadores da política romana, mantiveram as estruturas administrativas imperiais, promulgaram leis inspiradas nas leis romanas e tinham sua autoridade legitimada por mecanismos herdados dos romanos. (SILVEIRA, 2011, p. 3)
Com esses ataques tem-se a mentalidade que ocorreram rupturas, mas Silveira com base em Frighetto (1998) mostra que os reis bárbaros deram continuidade à política romana, seguindo as suas estruturas e tudo tinha seu sustentáculo com os alicerces romanos. Assim o conceito de “Antiguidade Tardia”, nos conduz a uma reflexão sobre a rigidez cronológica, trazendo consigo novos questionamentos e abordagens.
Mas como citado no início do texto, este termo não é de unanimidade, alguns historiadores preferem usar o conceito de Alta Idade Média que intitula-se como período inicial da Idade Média, entendendo-se da queda do Império Romano do Ocidente, em 476, até o enfraquecimento do feudalismo no início do século XI, buscando defender a ideia de que este período está produzindo aspectos específicos e originais permitindo enxergar os séculos iniciais da Idade Média.
Sem querer atribuir significado excessivo aos marcos cronológicos, creio que a expressão Alta Idade Média e mais adequada do que Antiguidade Tardia à plasticidade das sociedades romano-bárbaras que emergem a partir dos séculos V e VI. Ela permite que se enxerguem os primeiros séculos da Idade Média como um lócus de reinvenção da herança clássica, um espaço da construção de fenômenos específicos e originais, por exemplo, no domínio literário, o latim ‘alto medieval’, no domínio da história política, a Realeza Cristã, e, no domínio da economia rural, o ‘Grande Domínio’. (CÂNDIDO, 2008, p. 10)
De qualquer modo o referencial sempre será o Império Romano, para ambos, seja para os defensores da Alta Idade Média quanto para os defensores do termo Antiguidade Tardia, o que difere bruscamente é a ideia de ruptura.
Comumente os historiadores que adotam a nomenclatura “Alta Idade Média” salientam a ruptura que separou a Antiguidade do período consagrado sob a alcunha de Idade Média, enquanto os partidários da Antiguidade Tardia insistem numa continuidade perpetrada pelos novos agentes políticos no interior do Império. (SILVEIRA, 2011, p. 1)
Historiadores buscam achar o marco inicial para o conceito de ambos os conceitos. Em nosso caso, para Funari o Imperador Constantino é a figura chave na antiguidade tardia e para a posteridade (FUNARI, 2016, p. 48), sendo de grande relevância analisar o impacto causado pela sua conversão dentro de um espaço que não teve ruptura nítida mais sim transformações, que refletiram na mudança do cotidiano no Império. Sendo isso pouco explorado pela historiografia essa compreensão é ainda fundamental para que se possa concordar com historiadores como, Gibbon (2005), Oliveira (1990) entre outros que posicionam o século IV, e dentro deste período grandes transformações, como a conversão do Imperador Constantino e como consequência deste fato a ascensão do cristianismo.
Entende-se que ensinar sobre a ascensão do cristianismo que está totalmente vinculada à ideia de Antiguidade Tardia é de fundamental importância, não apenas para entender o contexto da época e as transformações na mesma, mas também a influência do cristianismo ao longo dos anos, e como Paul Veyne aborda em sua obra ‘’Quando nosso mundo se tornou cristão’’:
Sou francês, nascido em 1930, que tipo de pessoa eu teria me tornado, quais seriam hoje minhas opiniões seguiria se os nazistas tivessem vencido? Vejamos: como imaginar o mundo atual sem o cristianismo, como poderia ele desaparecer uma vez que existe ainda. (VEYNE, 2010, p. 168)
As opiniões e ideologias vêm da “bagagem” e espaço social, intelectual, político e econômico que cada um tem, não podemos negar que a história do Ocidente é de total importância, pois como ignorá-la uma vez que já existe, mas não devemos reduzir a relevância dos povos não europeus na história universal. O quadripartite traz uma ideia de evolução e que o presente sempre avança para melhor, e o passado é visto como ultrapassado, esta história linear que para o historiador não serve, pois história é como um pacote de pipocas, ela estoura uma em cada canto, algumas nem chegam a este ponto, ou seja, enquanto um povo está com sistema de mercadoria, escravos, plantação e colheita o outro está vivendo como nômade, baseado na caça e na pesca.
Referências Bibliográficas
CÂNDIDO, M. Entre "Antiguidade Tardia" e "Alta Idade Média".Diálogos, DHI/PPH/UEM, v.12, n.2/n.3, p. 53-64, 2008.
FUNARI, Pedro Paulo Abreu; RAMALHO, Jefferson. As representações do imperador Constantino na estatuária e na epigrafia romanas Revista Diálogos Mediterrânicos, Número 10 – Junho/2016
GIBBON, Edward. Declínio e queda do Império Romano. Trad. José Paulo Paes. Ed. Abreviada. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
OLIVEIRA, Waldir Freitas. A Antigüidade Tardia. São Paulo: Ática, 1990.
SIILVEIRA, Verônica da C. Reflexões sobre o conceito de “Antiguidade Tardia”. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.
VEYNE, Paul, 1930- Quando o nosso mundo se tornou cristão: (312-394)/Paul Veyne; tradução de Marcos Castro. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
Bom dia caro Gabriel.
ResponderExcluirPrimeiramente quero parabenizar pelo seu texto, penso que realmente este debate, como você citou no inicio do seu texto, não deve permanecer apenas entre os dois marcos, mas ir alem e discutir sobre as demais divisões. Tenho apenas um apontamento e onde minha pergunta se encaixa, você poderia explicar mais a fundo essa definição de Alta Idade Média, e o quadripartite tem algum lado positivo?
Att; Bruno Maldonado.
Boa noite Bruno, fico agradecido, na questão dá Alta Idade Média penso que está ligado a ruptura mesmo, ao contrário dá Antiguidade Tardia esse seria o grande diferencial em meu ponto de vista, tem um artigo do Marcelo Cândido: A Alta Idade Média,explica bem isso, é domínio público.
ExcluirNa questão do ponto positivo creio que o lado bom é a base de tempo que pode se passar para a criança, o que facilita o aprendizado inicial, pois essa "nova" dimensão historiografica exige maior aprofundamento e maturação para entendimento.
Caro Gabriel,
ResponderExcluirO debate que promoveu acima é muito válido e contundente a História. No entanto, percebi que você apresentou os contrapontos entre defensores de Antiguidade Tardia e defensores de Alta Idade Média, dessa forma, na perspectiva do ensino, como você iria levar estas contribuições teóricas para sala de aula?
Mais ainda, você já pensou em problematizar com os alunos o discurso religioso, sobretudo com a literatura patrística de Agostinho de Hipona sobre esse período de transição?
Grato,
José Walter Cracco Junior
Boa noite José, fico agradecido.
ExcluirLevaria esse debate utilizando escritos dos próprios defensores desses períodos e usaria juntamente a divisão que o livro didático trás, e no primeiro momento deixaria eles lerem e problematizar as mesmas, fazendo assim "florescer" o pensar historicamente do estudante.
Na questão do Agostinho de Hipona peço desculpa pela minha ignorância, mas de qual discurso religioso você está se referindo, pois tem vários discursos do mesmo, tanto no seu período de vida "pagão", quanto no seu período de vida cristã.
Agradeço pela resposta Gabriel,
ExcluirQuanto ao discurso de Agostinho de Hipona, é o discurso do universo cristão, haja vista que é nele que Agostinho insere a conduta religiosa e cuida de livrar o cristianismo das acusações de contribuir para queda de Roma.
Grato,
José Walter Cracco Junior
Olá, Gabriel! Adorei o tema de seu texto, é um assunto que me questiono sempre, principalmente no período de férias quando estou montando o plano anual do curso que leciono. Como você apresentou, é necessário que se siga essa problematização para as outras divisões a que estamos acostumados. Sendo assim, para os outros cortes, você tem indicações de mudanças ou de novos termos e recortes transitórios que possa me indicar ou explicar rapidamente? Talvez a ideia de longa idade média para a passagem à modernidade se encaixe um pouco?
ResponderExcluirOutra dúvida minha vai além: como incluir outras interpretações e realidades, como a história oriental ou a africana, nesse meio, por exemplo (sem criar uma disciplina ou unidade a parte)? Como você mesmo falou, a divisão quadripartite tem um fundo político fortíssimo e é necessário problematizá-la, mas dá para ir além das rupturas e questionar o próprio conteúdo que essa divisão acarreta?
Muito obrigada!
Luiza Hooper Moretti
Olá, Luiza, muito obrigado.
ExcluirA respeito da indicação é isso mesmo, inclusive o livro do Jacques Le Goff - Uma Longa Idade Média, trata muito bem essa questão e vai contra essa ideia de ruptura, já na questão de modernidade e contemporânea eu fico devendo, pois mesmo pesquisando sobre isso até agora não encontrei nada referente.
Nessa questão de diferentes interpretações Luiza, eu creio que pode sim abordar as visões que diferem do ocidente, o problema é tentar resumir o máximo de perspectivas e aprofundamento, pois infelizmente hoje o professor tem aquele ideia de vencer o conteúdo e passa tudo "batido" sem o devido refletimento. Na universidade esta questão se torna mais fácil, enquanto na escola teria que explicar o jogo de interesses e tensões que o quadripartite envolve, podendo fazer uma breve discussão sobre o ponto de vista de quem escreve, do lugar em que ele se encontra e assim por diante, o que poderia usar essa divisão como exemplo, o que não necessitaria de uma nova unidade ou disciplina.
Na ultima questão eu peço desculpa pela minha ignorância, talvez não seja essa a resposta, mas além dessa ideia de ruptura, o jogo de interesses e a base intelectual que força o individuo a seguir e acreditar deve ser problematizada, o local, e o que o escritor está buscando deve ser repensadas.
Olá Gabriel,
ResponderExcluirVocê considera que essa divisão quadripartite ainda é necessária nas discussões do cotidiano escolar?
Maicon Roberto Poli de Aguiar.
Olá, Maicon.
ExcluirCom toda certeza, como respondi na questão anterior, além da ruptura pode-ser trabalhar conceitos de cotidiano, pode, jogos de interesses, o parcialidade do historiador, mostrando ao estudante que o livro didático não é um dogma é que essas divisões podem e devem ser problematizadas.
Olá Gabriel,
ResponderExcluirCara, gostei bastante das suas colocações, sobretudo quanto a preocupação em problematizar a questão da divisão quadripartite da história. Quanto aos questionamentos, acerca dessa "divisão da história", não seria fundamental pensar para além dos marcos históricos, a questão das rupturas e continuidade dentro do contexto histórico?
Grato!!!
Mayke Rogerio Ferreira Leite.
Prezado autor, Gabriel,
ResponderExcluirParabéns pelo texto e pela temática em tela,
O debate sobre a passagem da antiguidade romana ao Ocidente medieval é interessante para a reflexão sobre os períodos históricos em tela e sobre a semântica dos tempos do ponto de vista da própria teoria da História. O Conceito de Antiguidade Tardia, proveniente da historiografia alemã do início do século XX, a meu ver, trouxe uma importante contribuição para a análise da história entre os séculos III e IV de nossa era, uma vez que permitiu leituras deste período para além dos cortes abruptos entre “antigos/clássicos” e “cristãos”, entre Antiguidade e Alta Idade Média, refletidos nas leituras que observam nestes tempos processos estritos de decadência, declínio ou queda. Há de se notar que novas leituras, possibilitadas por autores como Peter Brown e Henri Marrou, conduziram a compreensão destes tempos para o âmbito da cultura, psicologia, mentalidades, vida cotidiana, ampliando o entendimento histórico e possibilitando outras chaves de entendimento para uma educação histórica. Nesse sentido, caso possa, gostaria que comentasse sobre a relação Antiguidade Tardia e o ensino de História.
Assinado: Roberg Januário
Olá Roberg, fico muito grato.
ExcluirCreio que a relação de Antiguidade Tardia e Ensino da História serve para repensar os processos de rupturas, e não focando em grande fatos ou heróis, como a historia factual precisava, essa nova perspectivas mostra que os marcos devem ser problematizados, a história possui lacunas e o papel do historiador é preenche-las, e como o historiador é humano e o ser humano é ligado a interesses, o lugar que ele produz influencia totalmente, é aquele velho ditado, "conta-se apenas a historia do vencedor" e isso deve ser questionado. Explicar sobre Antiguidade Tardia alem de compreender o conceito de ruptura e cultura e entender o processo de continuidade que os "Bárbaros" dão sobre os alicerces romanos.
Olá Gabriel! Essa divisão quadripartite de fato tem suas limitações, uma vez que leva em conta apenas aspectos político-militares e, ainda por cima, que tenham influenciado somente a cultura europeia ocidental. Porém, vejo ela como uma de tantas possibilidades para se dividir o tempo, não devendo se prender tão somente a ela. A ideia de Antiguidade Tardia e Alta Idade Média levam em consideração outros aspectos, como transformações sociais e culturais, pontos de vista esses que estão mais em voga nos dias de hoje nas análises historiográficas. E daí vem minha pergunta: Até que ponto qualquer nova divisão e periodização da História estão ligadas com os mais recentes debates historiográficos? Ou seja, como a mentalidade de cada época determina as novas periodizações?
ResponderExcluirOscar Martins Ribeiro dos Santos