O ESTADO NOVO E A AFIRMAÇÃO DO ENSINO DE HISTÓRIA COMO APARELHO IDEOLÓGICO NACIONALISTA
Ellan Eduardo da Silva
História-Faculdade Dom Bosco
Durante o governo constitucionalista de Vargas, as efervescências sociais eram inúmeras: as influências do nazi fascismo e comunismo, as greves trabalhistas, a criação da LSN (Lei de Segurança Nacional). Entretanto, poucas instituições retratavam tão bem o paradigma vivido como a emergência da AIB (Ação Integralista Brasileira) e da ANL (Aliança Nacional Libertadora). Apesar de antagônicas, ambas comungavam de um mesmo ideal: o nacionalismo; isso demonstra como a construção de um ideário nacional varonil foi atuante em quase todo o mundo no período entre guerras.
Em 1937 iniciaram-se os preparativos para a eleição presidencial. Municiados de apoio no Exército, Vargas, aproveitando-se das agitações comunistas plantadas pela Intentona de 1935, pelos manifestos dirigidos por Luís Carlos Prestes e pelo receio popular de uma revolução, organizou o golpe do Estado Novo, cujo estopim foi o denominado Plano Cohen, o qual detalhava uma revolução comunista. Contanto, o plano foi uma produção integralista, amplamente divulgada pelo governo como uma ameaça à soberania nacional.
Durante este período, não houve uma ruptura com os projetos educacionais, mas sim uma afirmação com o poder ditatorial da centralização do ensino, já que, sendo a educação uma importante ferramenta da construção da consciência, não poderia estar nas mãos dos liberais ou dos coronelistas. Outrossim, é a massificação de conceitos conservadores, tais como família, religião, pátria e trabalho, delegados ao ensino de história como forma de manutenção da sociedade atuante.
Mais uma vez, o objetivo da educação e do ensino de história se volta ao nacionalismo, o qual desempenharia um valor maior para o Estado. “A questão que se coloca é que, servindo à nação, a educação servia ao Estado, instituidor da nação” (Hilsdorf, 2003, p. 99).
No ano de 1935, seguindo a distribuição política adotada por Vargas, outro mineiro assumiu o comando do Ministério da Educação: Gustavo Capanema.
Capanema rodeou-se de celebridades culturais da época, como Portinari, Lúcio Costa e Carlos Drummond de Andrade. Este último era seu chefe de gabinete e braço direito do ministro.
Contanto, o movimento mais atuante foi durante o Estado Novo. Em 1942, Capanema começara a decretar as “leis orgânicas” decretos-lei que reformara todo ensino secundário e, posteriormente, o primário. A sua principal intenção foi à criação do ensino industrial, como comprova a “Exposição de Motivos” do decreto-lei Nº 4.073, de 30 de janeiro de 1942:
“O primeiro dos documentos referidos é o projeto da lei orgânica do ensino industrial, destinada a estabelecer os princípios gerais normativos da organização dos estabelecimentos de ensino industrial e do funcionamento dos cursos, das diferentes categorias e modalidades, que os mesmos estabelecimentos possam ministrar.
O segundo é o projeto de regulamento dos diferentes cursos que as nossas atuais condições econômicas estão a reclamar.”
O projeto de regulamentação do paradigma econômico citado acima é uma demonstração da influência política (ideal da industrialização pregado no Estado Novo) e econômica (integração de um mercado interno no capitalismo nacional) na educação. “Para Marinete Silva, o ensino priorizado foi o secundário técnico, nas modalidades agrícola, industrial e comercial, destinado a preparar mão-de-obra para as funções da “era das máquinas” (HILSDORF, p. 101).
A reforma educacional ocorrida nesse período aproximou algumas figuras escolanovista do governo, como Lourenço Filho. Isso ocorreu pelas identificações ideológicas, já que ambos propunham o ensino com bases nacionalistas, operosidade do cidadão, racionalidade, higienização da sociedade e trabalho educativo. (HILSDORF, p. 102)
É importante frisar o caráter formador do ensino industrial por não excluir totalmente disciplinas humanísticas e se organizar em ciclos. Entretanto, a dicotomia entre a educação privada e pública acirrava ainda mais a caracterização classista da educação brasileira. O ensino de História, apesar de não ter sido extinto, sofreu com o aspecto de inutilidade frente ao ensino técnico.
Conclusão
Analisar a construção da identidade nacional somente por uma perspectiva (no caso deste estudo, a educação e o ensino de História) é negligenciar a complexidade da experiência humana na formação deste ideal fundamental nas sociedades contemporâneas. Portanto, o objetivo deste estudo é, através de um recorte temático, tentar alcançar o que foi um importante movimento para a formação do Brasil como nação.
Outrossim, é a heterogeneidade temporal permitida pela extensão de nosso território, sendo que diferentes realidades compunham o país, o que torna mais laborioso a reflexão sobre qualquer condição histórica, seja oficial ou não.
Entretanto, fica claro a intenção política e ideológica do ensino de História no decorrer da historiografia brasileira, sobretudo para os republicanos que viam a educação como grande arma para a transformação evolutiva do progresso brasileiro, oferecendo, assim, o progresso dos tempos modernos (HILSDORF, p. 60). Além de que passaria pela instrução, pelo sentimento de pertencimento, ou seja, identitário, construído a partir de situarem-se em relação ao seu passado, a manutenção da ordem e do capitalismo.
Por isso, apesar de entre 1930 a 1945 o ensino cientificista estivesse intrinsicamente ligada às elites, o ensino elementar fora demasiadamente expandido, seja para zonas urbanas ou para rurais, abrindo aulas noturnas para atingir os trabalhadores.
É importante percebermos que os ideais nacionalistas dos escolanovista influenciaram a revolução burguesa de 30 e fora ampliado após o fim da primeira república. Hilsdorf concluiu que os diálogos entre educação e política faziam parte de um projeto de controle, como ela diz:
“Liberais e católicos têm um projeto (autoritário) da Escola Nova do exterior, não enquanto mero transplante cultural, uma imposição de ideias estrangeiras, uma “dominação”, mas porque essa metodologia foi aceita e considerada um mecanismo eficiente de controle social, para constituir “de cima para baixo” o povo adequado à nação”.
Por fim, a necessidade do controle social, da ordem, da supressão das greves operárias, do condicionamento imigrante, do avanço e garantia do capital, da aceitação política e da firmação do Estado transformaram a educação, sobretudo o ensino de História num instrumento ofensivo através da narração de um passado único, de homens e fatos heroicos, para a formação da mentalidade nacionalista, cujo objetivo dos cidadãos brasileiros era a obediência às leis e da moral para que “todos” comungassem do progresso capitalista construído pelo trabalho da nação.
Referências:
ABUD, Katia. Formação da alma e do caráter nacional: ensino de História na Era Vargas. Rev. bras. Hist. vol. 18 n. 36: São Paulo, 1998
FERREIRA, Rita de Cássia Cunha. A Comissão Nacional do Livro Didático durante o Estado Novo (1937-1945). Dissertação de mestrado Universidade Estadual Paulista. Assis, 2008.
HILSDORF, Maria Lucia Spedio. História da educação brasileira: leituras. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.
E-Referências:
<http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-4073-30-janeiro-1942-414503-133697-pe.html> acessado em 15 de fevereiro de 2017.
Olá Ellan,
ResponderExcluirparabéns pelo artigo. A minha pergunta é a seguinte: Como você percebe que o ensino de História se tornou inútil diante do ensino técnico secundário? Será que a História não possuía uma função dentro desse contexto?
Att.
Paula Lorena Cavalcante Albano da Cruz.
Olá , Paula. Obrigado por ler e comentar meu artigo. Em quase todas ocasiões que o Estado brasileiro enfatizou o ensino técnico (Era Vargas, Ditadura Militar e ao que tudo indica Governo Temer) trouxe consigo um problema estrutural: o antagonismo entre ensino das elites - cujas ciências têm papel de protagonista - e o ensino para os filhos da classe trabalhadora - em que o foco é a formação da mão de obra. Esta dicotomia serve para legitimar ainda mais a desigualdade social, já que enquanto alguns têm acesso ao ensino de história, a outros este ensino é omitido.
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ResponderExcluirEllan,
ResponderExcluirParabéns pela excelente escrita. Faço minha pergunta no seguinte sentido: A formação do sentimento nacionalista, durante o período histórico trabalhado no texto, foi importante para o desenvolvimento, formação e união da Nação Brasileira?
Att.
Maikel Gustavo Schneider
Ola, Maikel. Obrigado por ler e comentar meu artigo.
ExcluirComo é de costume nas ciências humanas, aqui fica uma clara divergência ideológica, na qual de um lado o nacionalismo contribuiu sim para o desenvolvimento - sobretudo desenvolvimento industrial capitalista. Mas por outro teve e tem a função de diluir as diferenças entre classes sociais antagônicas, já que independente da sua condição financeira, trabalhista e de bem estar social "todos somos brasileiros".
ExcluirParabéns pelo trabalho. Motiva ao leitor a querer saber mais.
ResponderExcluirDiante do fragmento: "Mais uma vez, o objetivo da educação e do ensino de história se volta ao nacionalismo, o qual desempenharia um valor maior para o Estado." - Pergunto: Tem conhecimento de algum projeto ou modelo de escolas primárias, mantidas pela União, que objetivaram os projetos nacionalistas, na era vargas, no Brasil?
Carla Cattelan
Obrigado por ler e comentar meu artigo, Carla. Não tive contato. Em minha pesquisa eu parti por uma outra perspectiva metodológica, mas é uma excelente sugestão.
ExcluirOlá Ellan,
ResponderExcluirComo você avalia o ensino de história hoje na contribuição para construção da identidade brasileira nos contextos híbridos em um páis continental como o nosso??
Olá, Luiz. Obrigado por ler e comentar meu artigo. A LDB de 96 estabelece o ensino de história regional. Contudo, na prática isso ainda é pouco explorado nas escolas brasileiras contando a riqueza cultural que nosso país oferece. Portanto, a nossa história ainda insiste em valorizar elementos centrais em detrimento das regionalidades.
ExcluirAgora, se partirmos da proposição futura, ou seja, o que o ensino de história pode contribuir, eu defendo as ideias de Darcy Ribeiro em que ele expõe que não havendo uma nacionalidade brasileira formado, podemos nos tornar naquilo que quisermos. Pela conjuntura atual, temo que isso seja somente um sonho de nós professores.
Olá Ellan,
ResponderExcluirO quanto o Departamento de Imprensa e Propaganda estava atrelado ao processo educacional do período do Estado Novo?
Maicon Roberto Poli de Aguiar.
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ExcluirBoa tarde, Maicon. O DIP e o Ministério da educação eram os alicerces do aparelho ideológico varguista. Além de essencialmente terem objeções e fundamentos parecidos, sobretudo por estar em um Estado centralizado, foi atribuído ao DIP a criação de cartilhas que eram distribuídas nas escolas. Outrossim são as relações indiretas, como os vídeos estatais que eram transmitidos obrigatoriamente nas salas de cinema antes dos filmes. Sem dúvida tudo isso contribuiu para o processo educacional nacionalista nos anos ditatoriais.
ExcluirEllan muito bom o texto, também trabalho com essa ideia de nacionalismo através da educação, mas usando como referência o Gymnasio Amazonense Dom Pedro II, que
ResponderExcluirse baseava no que já existia no Rio de Janeiro.
Bom a educação com a proclamação da república, no final do século XIX já se baseava e era usado politicamente como um ideário republicano. Como você percebe esses dois momentos históricos?
O colégio que é objeto de sua pesquisa possivelmente é uma inspiração do homônimo carioca, onde "nasceu" a disciplina de história independente, fruto dessa preocupação monárquica com a nacionalidade brasileira.
ExcluirPenso que a principal diferença é que com as efervescências sociais do século XIX, o governo utilizava-se do nacionalismo para uma coesão política territorial. Enquanto que na República, sobretudo na Era Vargas em diante, o nacionalismo serve como uma coesão social econômica.
Obrigado por ler e comentar meu artigo, Marcia. Até mais.
ExcluirOlá Ellan,
ResponderExcluirMeu questionamento é o seguinte:De que forma o ensino de História pode ser considerado uma ideologia nacionalista dentro desse contexto por você descrito?
Att,
Valdenira Melo
Ola, Valdenira. Dentro de minhas pesquisas, utilizo como uma das fontes livros didáticos do período do Estado Novo. Nestes é muito comum perceber a exaltação das qualidades naturais brasileiras, dos feitos dos "heróis" nacionais, a exaltação do líder - Vargas - entre outros.
ExcluirOlá Ellan,
ResponderExcluirVocê consegue perceber que o Ensino de História, ainda hoje, vem recebendo ideologias por parte dos ministrantes da matéria?
A ciência História sempre será espaço para propagações de ideologias. A problemática apresentada nesta pesquisa é que a ideologia difundida foi fruto de um esforço vertical imposto pelo Estado varguista. Abraços, Lucas.
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