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Edilza Fontes

MEMÓRIAS EM MOVIMENTO SOBRE O ENSINO DE TEMAS CONTROVERSOS NO PARÁ (1964 – 1985)
Edilza Joana Oliveira Fontes
Professora associada IV – UFPA

Esta comunicação pretende debater o uso de repositórios institucionais em sala de aula. O debate sobre as novas leituras da ditadura militar entrou na ordem do dia entre os historiadores brasileiros, percebemos isto com a Criação de diversas comissões, como:  a Comissão Nacional da Verdade, as comissões das verdades dos estados e de algumas instituições públicas, como as universidades, por exemplo. O projeto de pesquisa “Os anos de chumbo na UFPA: memória, história, trauma e cultura educacional (1964-1985)”, sob minha coordenação, teve como objetivo fazer o levantamento documental no Arquivo Central da universidade, a catalogação do acervo fotográfico da Biblioteca Central e do Museu da UFPA, bem como o registro de quarenta depoimentos, de professores, ex-alunos, servidores, que foram atingidos por atos dos governos militares ou das administrações superiores da Universidade Federal do Pará que provocaram violações de direitos.
O projeto é um espaço aberto para as vozes das vítimas de violação dos direitos humanos que tinham relações com a UFPA. Estas relações os fazem membros de uma comunidade de interesses e estabelecem relações de pertencimento. Nesses depoimentos podemos fazer a aproximação entre provas documentais escritas, como as já levantadas pelos gabinetes dos reitores da universidade, e as memórias das vítimas que falam de suas experiências e que sofreram “o mal sofrido de uma pena sem culpa” (Lafer, 2012, p. 16). Esta relação possibilita articular história e memória, principalmente por se estabelecer uma memória coletiva das vítimas dos governos militares na UFPA. Um dos objetivos do projeto é construir um acervo digital com os depoimentos, para que eles sejam fontes para a escrita de uma história da instituição que reflita sobre a relação entre os governos militares e a universidade.
O acervo digital será publicado na página da Assessoria de Educação a Distância (AED) da Universidade Federal do Pará. É um acervo de fontes orais e visuais. O processo de seleção dos depoentes e os registros das memórias foram feitos com roteiro específico e definidos de acordo com os procedimentos da metodologia de história oral. Um dos critérios para definição dos depoentes foi registrar as memórias de pessoas que sofreram violações dos direitos humanos e cuja história de vida expresse traumas ainda presentes. Na universidade, desde 2010, está sendo construído um repositório multimídia no âmbito da AED, o UFPA Multimídia, visando incentivar o uso das tecnologias da informação e comunicação (TICS) no ensino de graduação e estabelecer um canal de diálogo entre a produção de conhecimento o científico e a sociedade. O UFPA Multimídia disponibiliza a produção científica desenvolvida na Universidade Federal do Pará em linguagens multimídia (vídeo, áudio, foto, animação). A ideia é que essa plataforma se torne um espaço de interação ciência-sociedade, permitindo que diversos públicos realizem seus próprios processos de construção de conhecimento.
Nossa pesquisa parte do pressuposto de que trabalhar com memórias implica um processo de negociação, no qual o historiador tem um papel relevante no registro destas memórias, na medida em que as seleciona. Há, portanto, um processo de construção, elaboração e registro de diferentes memórias. O repositório é um espaço digital e amplia o conhecimento produzido, nesse caso sobre as memórias de educadores da UFPA, e cria um ambiente de troca com a sociedade, ou seja, amplia o acesso às memórias, democratizando e enriquecendo o conhecimento sobre os processos históricos (Miranda; Eliasquevici; Sirotheau, 2012, p. 8).
O projeto de pesquisa possui depoimentos entre ex-alunos e professores dos anos 1960 e 1970, que está disponível para acesso no http://www.multimidia.ufpa.br. Por exemplo, dois momentos chaves dos governos militares como os anos de 1964 e de 1968, podem ser assim percebidos pela memória de nossos depoentes, eles relembram as prisões de 1964, os inquéritos policiais-militares implantados na universidade, os processos de ocupação das faculdades em 1968, as intervenções nos diretórios acadêmicos, a não contratação de professores por discordância do SNI (Sistema Nacional de Informação), as mobilizações dos estudantes sobre a implantação da reforma universitária, a reorganização do movimento estudantil na UFPA nos anos setenta, a reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE), a morte do estudante César Leite por um agente da Polícia Federal em sala de aula e a prisão de oito estudantes, acusados de atentar contra a Lei de Segurança Nacional.
Foram organizados 5 programetes que também estão neste repositório institucional destacando alguns momentos chaves da ditadura civil-militar na UFPA, que são: as memórias do golpe de 64, 1968: a utopia de uma paixão, traumas e perdas do período militar, censura e tortura na ditadura militar e a redemocratização. O professor de História pode fazer comparações com outras fontes, debater a historiografia produzida sobre o tema e colocar em questão temas recentes e “caros” ao conhecimento histórico, os conceitos de memória e o tempo presente nos possibilitam construir novas perspectivas de cidadania para o ensino de história.
 Os depoimentos estão inseridos no campo acadêmico que debate o direito à memória, para que as gerações futuras conheçam e se previnam de violações desses direitos, o slogan da própria criação da Comissão da Verdade “o passado não pode ser modificado, mas conhecê-lo pode mudar o futuro”, parte-se da perspectiva de existem histórias e memórias que precisam ser lembradas para problematizarem aspectos considerados invisíveis há 30 anos, quando se prevaleciam memórias hegemônicas sobre os governos militares. Por exemplo, na universidade Federal do Pará o imaginário em torno do ex-reitor Silveira Neto, que é o nome do campus do Guamá, nos lembra esta memória construída.
O registro das memórias e seus usos na pesquisa e na construção da narrativa histórica fazem dos testemunhos fontes especiais para o historiador, que lhes confere um estatuto particular quando escolhe os seus depoentes e os interroga, estabelecendo fronteiras entre o passado e o tempo presente do relato. Isso exige do historiador uma lógica nova de investigação. Entre histórias e memórias dos ex-alunos e professores encontram-se uma rica fonte de conhecimento para entender o período histórico em sala de aula.
O passado recente vai à escola como forma de construir um novo debate acerca dos acontecimentos que ocorreram no interior de uma instituição pública no estado do Pará. A escola assumiu um papel importante desde a redemocratização, ela se tornou um canal de transmissão do conhecimento acerca de temas considerados controversos. O “dever de memória” que se impõe ao professor de História, em nosso caso, requer que se reflita sobre os apoios, as acomodações e as formas de resistência que foram considerados a costura da trama política após os anos 60 no estado do Pará.
Segundo Anita Lucchesi (2015) devemos compreender não somente a forma como a história está presente de forma on-line, mas a maneira como as ferramentas digitais ajudam o profissional de História a construir uma nova relação com o conhecimento histórico. Portanto, percebemos que com a difusão das mídias, ocorreu novas apropriações e formas de construir o conhecimento histórico, que precisam está em constante diálogo com os livros didáticos de História.
As tecnologias digitais e de informação (TDIC) são ferramentas digitais que precisam ser vistas como partes integrantes do currículo escolar, pois, “não se trata de ter as tecnologias como apêndices ou algo tangencial ao currículo e sim buscar a integração transversal das competências no domínio das TDIC com currículo, pois este é o orientador das ações de uso das tecnologias” (ALMEIDA, 2013). Devemos pensar a construção de um plano de ensino que se centra na tríade tecnologias digitais, livro didático e conhecimento histórico.     
O repositório a partir de uma perspectiva da web currículo permite outras formas de acesso ao passado, o professor de História ao construir um plano de aula pode utilizar esta ferramenta de fácil acesso em uma plataforma digital. A História escolar precisa estar conectada com esta forma de divulgação do passado e que possibilita ao aluno conceber o passado não como algo pronto e acabado, mas que ele é fruto de seleções, recortes e visão de História. 

Referências Bibliográficas
ALMDEIDA, Fernando. Os limites como possibilidades de um currículo web. In: Almeida, Maria Elizabeth, Silva, Bento Duarte da (org.). Cenários de inovação para a educação na sociedade digital São Paulo: Edições Loyola, 2013.
ALVES, Davison; FONTES, Edilza. A UFPA e os Anos de Chumbo: A administração do reitor Silveira Neto em tempo de ditadura (1960 - 1969). Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 5, n. 10, a. 2013. p. 258 - 294.
LAFER, Celso. Justiça, história, memória: reflexões sobre a Comissão da Verdade. In: Fico, Carlos; Araújo, Maria Paula; Grin, Mônica (org.). Violência na história: memória, trauma e reparação. Rio de Janeiro: Ponteiro, 2013.
LUCCHESI, Anita. Conversas na antessala da academia: o presente, a oralidade e a história digital pública. História Oral, v. 17, n. 1, p. 39-69, jan/jun. 2014.
MIRANDA, Fernanda; ELIASQUEVICI, Mariane K.; SIROTHEAU, Sibério. UFPA Multimídia: uma experiência de uso das TICs para o fortalecimento do ensino de graduação na Amazônia. Diálogos de la Comunicación (en línea), v. 85, p. 1-18, 2012.

6 comentários:

  1. Parabéns pelo projeto! Disponibilizar as memórias dessas pessoas me parece fundamental para fazermos o percurso entre o direito e o dever de memória. Gostaria de saber se entre os depoimentos foi observada contradições entre as falas dos entrevistados? Se essa análise dos testemunhos é um dos objetivos do projeto ou estas avaliações ficam a cargo de cada pessoa que acessará p repositório?
    Ernesto Padovani Netto

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    1. Muito obrigado, o projeto trabalha com diferentes tipos de fontes. O repositório com 56 depoimentos cada um de 1 hora, alguns tem 2 horas, foram depoimentos a partir de professores, funcionários e estudantes, que a época nos anos 60, 70 e início dos anos 1980 sofreram violações dos direitos humanos no tempo dos governos militares, a seleção destes depoentes foi a partir desta identificação destes nomes, que apareciam nos jornais, porque nós fizemos o levantamento dos jornais, no caso de Belem, de grande imprensa podemos chamar assim, e que citaram pessoas ou que eram presas, ou lideranças, qualquer citação de pessoas que tinham sido aposentadas, e fomos montando as pessoas que nós iriamos chamar, esses entrevistados também fazem parte do documento interno da UFPA, como as correspondências entre os reitores e o MEC, nestas correspondências tinham o SNI que estavam no Arquivo Central da universidade, dentro da Assessoria de Segurança de Informação que se instalou nas universidades. A partir daí, tinham pessoas que o SNI não recomendava, como muitos professores vetados na época em processo seletivo, professores que tiveram bolsas de doutorado e mestrado cortados, professores que foram aposentados compulsoriamente. Foi feito um roteiro na documentação dos jornais e dos arquivos do SNI/ASI-UFPA e a partir daí fomos fazer as entrevistas, posso dizer que tem a geração de 64, a que sofreu o golpe, a geração de 68, o movimento de contestação dentro das universidades, e a geração da anistia que protestaram contra os governos militares. Temos depoimentos de funcionários antigos da universidade, que viram esses processos e que não sofreram violações dos direitos humanos mas que tinham muita memória para contar, deu para comparar as memórias dentro de uma geração do grupo, uma com a outra, e também comparar as informações que estavam nos jornais com a documentação do SNI, nós fizemos essa triangulação, colocamos esta documentação em diálogo a partir claro do trabalho do historiador, mas acho importante disponibilizar estas memórias, elas se tornarem públicas, por isso elas foram para o repositório, pois, a leitura que eu fiz pode ser a leitura diferente a partir de outras pessoas que acessem estas entrevistas, e a ideia é fazer deste repositório como um banco de pesquisa e o professor em sala de aula, pode pegar uma entrevista desta, cortar, recortar para começar a sua aula, mas ale disso nós fizemos programetes, que são programetes temáticos de 5 minutos, sobre o golpe militar, o programete de 5 minutos sobre 1968, um programate sobre tortura, um programe-te sobre anistia e o fim da ditadura, usando os depoimentos dessas pessoas, mas vinculados a estes temas que é justamente para o professor baixar, ele está no repositório (o link para baixar é este http://www.multimidia.ufpa.br/jspui/handle/321654/1303) também e iniciar a sua aula. O conselho universitário da UFPA fez uma comissão da verdade, eu sou a presidente, estamos terminando o relatório e já publicamos alguns artigos sobre o tema, e esperamos publicar um livro até o fim do ano, muito obrigada!

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  2. Excelente discussão! Como professora de História do Ensino Médio no Estado do Pará, percebo que esse tipo de fonte que esta sendo disponibilizada será de grande utilidade em sala de aula, pois podemos usar e confrontar com o material didático existente, principalmente nesse momento que se encontra a História do país, ensinar ditadura diante desse fundamentalismo crescente necessita das mais variadas formas possíveis para uma boa aula.
    Assim como também a discussão sobre as tecnologias digitais sendo inseridas no ensino de História é muito pertinente.

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    1. Muito obrigada professora a ideia realmente e fazer este debate HTP, de memória, de relação memória e História, de governos militares e por isso, por uma preocupação deste debate dentro de sala de aula, construímos um repositório (o link para acesso é este http://www.multimidia.ufpa.br/jspui/handle/321654/1303), ele é um acervo digital disponibilizado para professores, que podem utilizar para pesquisa, ou para uso em sala de aula, e também nos fizemos os programetes que são 5 documentários pequeninhos de 5 minutos cada um, e que o professor pode baixar, muito obrigado, o meu é Edilzafontes@yahoo.com.br e gostaria muito de entrar em contato com você.

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  3. Parabéns professora! Uma iniciativa louvável que possibilitará um repensar de nossa prática docente.Conheci parte do seu projeto na disciplina História pública no mestrado profissional em Ensino de História e já utilizei alguns relatos durante minhas aulas sobre Ditadura militar nas turmas de terceiro ano do Ensino Médio, foi um outro olhar para além do livro didático que limita o debate deste tema geralmente a sucessão de governos militares com poucas referências ao efeitos da ditadura na região Amazônica. Os alunos ficaram bem curiosos com os relatos, principalmente por ser uma memória local. Na ocasião realizei essa tríade entre tecnologias, livro didático e conhecimento histórico, para esta reflexão selecionei a competência de área 01 do Exame Nacional do Ensino Médio das Ciências Humanas que trata sobre Memória, identidade e patrimônio cultural, ficou bem claro para eles essa relação e distinção entre História e Memória, e o confronto entre testemunho e produção do conhecimento histórico sobre a história do tempo presente, analisamos o posicionamento das pessoas em vídeos do Youtube para verificar esses conflitos contemporâneo, sobre o uso de memórias da ditadura tanto para confrontar como para exaltar o período histórico a partir das demandas políticas recentes.
    William Fonseca Freire
    ProfHistória-UFPA

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  4. Bruna Liana Teza Canarin7 de abril de 2017 às 05:23

    Parabéns pela iniciativa, pensou em levar como Iniciação Cientifica? Pois é um tema em questão de debates hoje, por causa da Comissão Nacional da Verdade, visto que de todos os países que possuem alguma entidade para combater os crimes deste período, o Brasil foi o último a criar a instituição, é o que poucos ou quase ninguém sabe, é que este regime atingiu também as universidades existentes nesta epoca, sei disso por que estou na Iniciação Cientifica da UFOP, que trabalha justamente com isso, além de ser recente o projeto (assinatura da parceria em outubro 2016), é uma questão bem delicada.
    Bruna Liana Teza Canarin

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