A DICOTOMIA ENTRE ‘COLÔNIAS DE EXPLORAÇÃO’ E ‘COLÔNIAS DE POVOAMENTO’ E O ENSINO DE HISTÓRIA DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL
César Henrique Guazzelli e Sousa
Doutorando em História – UFG. Bolsista CAPES
O presente trabalho tem como problema central o modelo narrativo da História dos Estados Unidos hegemônico nos livros didáticos brasileiros, que se sustenta na oposição binária entre o norte – ocupado por famílias puritanas – e o sul – alicerçado nas monoculturas de exportação escravistas. Essa oposição marca um conflito dialético entre dois modelos de colonização, um agrícola (no sul), que se funda em grandes propriedades rurais e trabalho escravo, outro industrial (norte) e baseado na diversificação econômica e no trabalho livre. Após a Guerra da Secessão, na concepção dessa matriz narrativa, o modelo do norte prevaleceu. A partir de então, o capitalismo liberal dos Estados Unidos foi alavancado pela consolidação da unidade nacional, expansão industrial e o enorme afluxo de imigrantes europeus e asiáticos para a América, que serviram como mão-de-obra para alimentar o enorme surto desenvolvimentista do país. A democracia, o igualitarismo e o liberalismo estadunidenses, nessa perspectiva, estariam diretamente ligados à cultura puritana dos Estados Setentrionais dos Estados Unidos, herdeiros e bons praticantes do liberalismo político francês e do liberalismo econômico britânico. Os Estados Unidos são apresentados para os alunos, portanto, como uma transplantação exitosa do ideal de progresso europeu para o Novo Mundo.
A partir dessa matriz narrativa, há um elo entre a Europa e a América, entre as utopias democráticas e libertárias do Velho Mundo – profundamente marcado pela hierarquia, desigualdade social e pela tradição – e a percepção dos Estados Unidos como a materialização dessas utopias. A América estaria teleologicamente enlaçada à ‘tradição histórica e filosófica do Ocidente’, prevalecendo, portanto, a ideia de continuidade entre o Novo e o Velho Mundo, não a de ruptura. Curiosamente, essa forma de interpretação e significação do passado estadunidense não guarda qualquer afinidade com o que a historiografia dos Estados Unidos nos apresenta. Fundada sobretudo no texto seminal de F.J. Turner The Significance of The Frontier in American History, (1996), apresentado para a Associação Histórica Americana em 1893, na cidade de Chicago, a matriz interpretativa da historiografia estadunidense sustenta-se sobretudo na oposição entre Leste e Oeste.
Para Turner, a existência de uma zona fronteiriça com o wilderness ao Oeste, avançando sobre os Apalaches, o Mississipi, as Grandes Planícies e as Montanhas Rochosas, até finalmente alcançar o Oceano Pacífico, é o elemento definidor do desenvolvimento dos Estados Unidos. As terras livres do Oeste atraíam centenas de milhares de famílias, que buscavam escapar do ambiente opressor do Leste. Afastados do ambiente urbano, das relações de poder e hierarquia herdadas da Europa e em contato direto com a terra e a selva, viam-se livres para buscar o seu sustento e prosperidade a partir do próprio trabalho. Não haveria, nessa perspectiva, qualquer entrave à ascensão e êxito econômico dos indivíduos. A democracia estadunidense, por esse ponto de vista, era sempre fortalecida e regenerada pelo processo de expansão, já que os conflitos sociais e a desigualdade eram escoados para as terras livres do poente. A fronteira era percebida como uma válvula de escape para os conflitos do Leste. Por esse motivo, a hipótese interpretativa de Turner ficou conhecida como frontier thesis ou frontier hipothesis (AVILA, 2006).
A opção pela dicotomia entre Leste e Oeste, sobrepondo-se àquela adotada pelos livros didáticos brasileiros – entre Norte e Sul – antes de ser um mero capricho geográfico, traz enormes mudanças na compreensão e interpretação da História dos Estados Unidos. A ideia defendida nos livros didáticos, de que a cultura política e as práticas econômicas estadunidenses estão diretamente ligadas à adoção dos princípios iluministas e pressupostos liberais que chegavam à América em livros e panfletos que atravessavam o Atlântico, perde a sua plausibilidade quando observada à luz da hipótese de Turner. Nela, o autor explicita a afirmação de que o caráter nacional americano foi forjado no movimento de expansão das populações para o Oeste (
Dessa forma, quanto mais a colonização dos Estados Unidos se entranhava no wilderness, quanto mais se afastava da civilização, da cultura herdada da Europa e do conforto da vida urbana, mais austero e desafiador se tornava o ambiente. No embate de domesticação desse ambiente selvagem, os colonos, isolados do contato com o Leste, dependiam apenas do próprio trabalho e da própria diligência para sobreviver e prosperar. Mais do que isso, as pequenas unidades e comunidades de yeoman farmers, percebiam-se como parte de uma coletividade, porque perfaziam a mesma jornada modal em direção às terras livres do Oeste (ANDERSON. Isso acendeu, a partir do corpus argumentativo da frontier hipotesis, um tenaz espírito de solidariedade e colaboração entre os colonos da região fronteiriça. Atraídos para a América e, posteriormente, para a fronteira especialmente pelo imaginário de um novo Éden e pela ética puritana do trabalho individual/recompensa, os colonos do oesteestavam imbuídos de uma forte convicção igualitarista e liberal – Deus criou todos os homens à sua imagem e semelhança e deu a eles as mesmas oportunidades e faculdades. Dessa convicção, deriva outra, o libertarianismo - todos são livres para buscar a sua própria felicidade e êxito; o sucesso pessoal é resultado única e exclusivamente tributado ao esforço e empenho do indivíduo, enquanto o insucesso deve ser atribuído à leniência e preguiça.
Essas convicções, contudo, só puderam tomar corpo na região da fronteira, onde as relações de poder, a hierarquia e os abusos do direito de propriedade não existiam. O colaboracionismo entre os colonos na fronteira, balizado pelo igualitarianismo, pela ética do trabalho e pelas convicções liberais dos pioneiros, seria, portanto, a base da democracia americana. Daí a ênfase turneriana na ideia de que a democracia estadunidense nasceu da selva, do wilderness, provocando uma cisão fundamental com a Europa e entregando à América as rédeas de seu próprio desenvolvimento e a prerrogativa de narrar a sua própria história.
A percepção da historiografia brasileira sobre a história dos Estados Unidos (e a própria história nacional) tomou um caminho bastante diferente; ela derivou, sobretudo, de um esforço comparativo em que a narrativa do pretérito estadunidense foi usada como parâmetro para se compreender o próprio Brasil. Antes de se voltarem para os autores dos Estados Unidos, vistos como demasiadamente pragmáticos e parciais em um período em que a crença na objetividade histórica estava na ordem do dia, os intelectuais do Brasil buscaram na Filosofia da História da Europa continental do século XIX – particularmente Alemanha e França – grandes modelos interpretativos que buscavam explicar o ‘sentido da colonização’, conceito que no Brasil ficou celebrizado com Caio Prado Jr (1995). Ora, percebe-se o absurdo dessa opção. Afinal, como entregar ao colonizador a prerrogativa de explicar o sentido da colonização? Assim, a escrita da história brasileira consubstanciou aquilo que ela mesma criticava e buscava superar: a situação periférica em relação à Europa. Ao utilizar modelos de interpretação europeus para a realidade nacional, assim como uma narrativa que enlaçava o Brasil ao velho continente em um enleio de continuidade, nossa historiografia se negava a tomar as rédeas de seu próprio destino e narrar a sua própria história.
Temos, assim, uma dicotomia clara entre as formas de interpretar a condição pós-colonial da América nos Estados Unidos e no Brasil. Os autores brasileiros utilizaram os modelos de ‘história universal’ e os autores canônicos europeus para compreender a situação de subdesenvolvimento e ‘déficit civilizacional’ do Brasil na primeira década do século XX. A forma mais frequente dessa matriz analítica se deu por meio da história comparada, opondo a condição estadunidense posterior à colonização, tomada como referência exitosa, à situação do Brasil, percebido como uma experiência malograda. Desse modo, a historiografia norte-americana rompia com a escrita da história definida no Velho Mundo e estabelecia como cânone um modelo narrativo da história nacional estruturado sobre o excepcionalismo americano. No Brasil, optou-se por uma narrativa ressentida, que creditou a Portugal a culpa pelos nossos infortúnios a partir de uma filosofia da história europeia e não propôs qualquer alternativa programática para a superação da realidade aludida.
Conforme aponta Leonidio (1999), esse modelo interpretativo tem como base a obra do francês Paul Leroy-Beaulieu De la colonisation chez les peuples modernes, publicada em 1882. O próprio trabalho de Leroy-Beaulieu, por sua vez, tem como referência maior o alemão Wilhelm Roscher. Economistas, os dois autores escreveram em um contexto em que o Imperialismo, e com ele o discurso civilizador, alcançava o seu apogeu. Buscaram compreender a colonização a partir dos modelos tipológicos ‘exploração’ e ‘povoamento’. Subjaz às obras de Leroy-Beaulieu e Roscher o argumento de que a colonização não é necessariamente ruim. Conforme os autores, a partir de um modelo de povoamento sustentado no trabalho livre, os territórios colonizados poderiam beneficiar-se da intervenção europeia. Enquanto a matriz colonial de exploração, tipicamente Ibérica, era percebida como uma forma negativa, a matriz germânica/anglo-saxônica de povoamento era percebida como positiva e desejável.
O momento em que os autores aludidos escreveram também foi marcado pela noção do Progresso como um idolum saeculi sustentado sobretudo pela fé na ciência. Assim, os trabalhos dos autores não eram recebidos como produtos da geschichtesujeitos à valoração e interpretação do objeto estudado a partir de uma visão de mundo essencialmente histórica. Eles eram compreendidos como verdades constatadas a partir de estudos empiricamente guiados e, enquanto essas verdades não fossem superadas ou refutadas pela aplicação do mesmo método, permaneciam irrefutáveis. Dessa forma, em 1903 o serjipano Manoel Bomfim, amparado nos autores supracitados, publica A América Latina: Males de Origem, obra na qual sustenta que a atuação do estado bragantino como ator central do processo de colonização relegou o Brasil a um “estado de exploração parasitária”, acatando a dicotomia proposta por Leroy-Beaulieu entre colônias de exploração e colônias de povoamento como justificativa para as dificuldades enfrentadas pelas nações latino-americanas após a independência.
Portanto, a historiografia brasileira da história dos Estados Unidos e o ensino de História canonizado nos livros didáticos caracteriza-se por: a.) um método comparativo, que visou a América do Norte não com o intuito de compreendê-la como objeto, mas como uma espécie de benchmark para a análise da experiência histórica brasileira; b.) adesão ao modelo da ‘história universal’ europeia, que estabelece um elo intrínseco e linear entre a Europa e a América através da premissa civilizadora; c.) fatalismo aliado a uma valoração maniqueísta, creditando o êxito dos Estados Unidos à forma de colonização predominante na América do Norte – povoamento – e o insucesso do Brasil à forma de colonização predominante na América do Sul – exploração; d.) pessimismo histórico derivado da premissa anterior, uma vez que a colonização do Brasil a partir do modelo de exploração Ibérico nos teria herdado uma cultura burocrática, parasitária e indolente.
Referências
LEONIDIO, Adalmir. Em torno das origens: Leroy-Beaulieu e o pensamento social brasileiro. Estudos Sociedade e Agricultura. 13 de outubro de 1999. pp. 119-138.
AVILA, A.L E da fronteira veio um pioneiro...: a frontier thesis de Frederick Jackson Turner (1861-1932). Porto Alegre, Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006.
CRONON, William. The Trouble With Wilderness; or, Getting Back to the Wrong Nature. In: Uncommon Ground: Rethinking the Human Place in Nature. Nova Iorque: W.W. Norton & CO, 1995. pp. 69-90.
TURNER, Frederick Jackson. The frontier in American History. Nova Iorque: Dover Publications, 1996.
BOMFIM, Manoel. A América Latina: males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.
PRADO Jr., Caio. Evolução política do Brasil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1933.
LEROY-BEAULIEU, Paul. De la colonisation chez les peuples modernes. Paris: Guillaumin, 1882.
Olá César,
ResponderExcluirVocê percebe esse mesmo discurso de atraso, quando trata-se da adoção "tardia" da república no Brasil? Considerando que o país manteve o modelo monárquico, enquanto a grande maioria das nações que surgiram na América, romperam com essa estrutura.
Maicon Roberto Poli de Aguiar.
Olá Maicon! Excelente pergunta, que me fez pensar bastante. Obrigado. Acredito que a manutenção do modelo monárquico seja mais um sintoma do que uma consequência da premissa que estrutura meu argumento. Ou seja, demonstra um compromisso do Brasil, após a sua independência política, com o modelo de organização social bragantino. Antes de romper com as bases político-econômicas, culturais e sociais impostas por Portugal sobre o território colonial, associando-as ao atraso, o país recém-independente emulou o modelo do colonizador. Dessa forma, enquanto nos EUA a imagem da América como o Éden, o lugar de um novo começo prevalecia, por aqui a sociedade europeia se manteve como padrão a ser emulado para sermos considerados 'civilizados'.
ExcluirOi César
ResponderExcluirCom relação a permanência dessa abordagem que sustenta o modelo, de certa forma "melhor" de colonização nos Estados Unidos, e o "pior" modelo para o Brasil e América latina, a que vc atribui isso, ou seja, a que vc atribui a permanência dessa abordagem?
Parabéns pelo texto!
Olá, Edna! Obrigado por sua pergunta (muito boa, diga-se de passagem)!
ExcluirNos Estados Unidos existia, até o finalzinho do séc. XIX, uma escola historiográfica indisputada, que havia assentado as bases da História como disciplina científica no país em questão. Chamava-se escola teutônica, liderada por Henry Baxter Adams. Segundo essa escola, para compreender 'o que é um Americano' os historiadores deveriam voltar os seus olhares para a Europa, para as instituições britânicas e, particularmente, germânicas. Isso quer dizer que Adams pensavam os Estados Unidos como uma CONTINUIDADE da Europa. Um lugar em que os princípios liberais e igualitários associados ao Iluminismo poderiam florescer e prosperar sem os entraves dos resquícios feudais e monárquicos. Turner apareceu em 1893 com uma contestação a essa teoria. Ele não queria refutá-la em bloco, apenas oferecer 'outro lado da moeda'. Para Turner, o igualitarismo, a democracia, a cultura do trabalho e o liberalismo estadunidenses não floresceram no leste, mas no Oeste. Não na Europa, mas no solo virgem da fronteira americana. A ideia dele entronizou o excepcionalismo: os Estados Unidos não são uma transplantação das instituições europeias. Não são uma continuidade da Europa. São OUTRA COISA.
Obviamente, essa ideia era, acima de tudo, anticolonial. Marcava uma posição de poder e negava qualquer tipo de subserviência em relação à Europa, mesmo que teórica ou histórica.
No Brasil, contudo, essa 'ruptura' nunca aconteceu. Nossos autores clássicos, ao buscarem compreender as peculiaridades de nosso desenvolvimento, recorreram a autores estrangeiros e teorias como as de Leroy-Beaulieu e Wilhelm Roscher. Ambos buscavam justificar a colonização do séc. XIX a partir de uma premissa civilizadora, dizendo: "olha, no séc. XVI a colonização era de exploração, foi ruim e tudo, mas agora a coisa mudou. Os colonizadores do século XIX são caras bacanas que não querem explorar, querem povoar e levar a Civilização ao mundo". E nós COMPRAMOS ESSA IDEIA! Ela perpassa, de certo modo, os escritos de Sergio Buarque de Hollanda (Ladrilhador X Semeador X Aventureiro), Manoel Bomfim e Caio Prado Jr. (exploração X povoamento) e uma série de outros autores que avalizaram, na nossa historiografia, a posição do colonizador. Isso nos legou diversos males, entre os quais os mais nefastos são a 'síndrome do vira-lata' e uma cultura que valoriza o status social acima do trabalho.
Abraço.
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ResponderExcluirOlá, essa questão do tipo de colonização sustenta debates até hoje.
ResponderExcluirGostaria de saber tua opinião sobre os livros didáticos que ainda sustentam essa dicotomia exploração-povoamento.
César Guazzelli,
ResponderExcluirParabenizo-o pela reflexão do seu estudo. Acredito que você foi além da proposta do título. Seu trabalho permite pensar que a história do Brasil foi construída com pensamento/teoria europeu/eia e que foi, ao mesmo tempo, uma experiência frustada comparada com a historiografia norte-americana. Você crítica Caio Prado - achei que foi demasiado e pôde até ter sido meio injusto. Não entendo em que sentido a obra dele foi para você vista como "viciada teoricamente" aliada com "olhares europeus". A constatação do subdesenvolvimento latino-americano é para mim bem mais realidade percebida pela "divisão internacional do trabalho" - são nossas relações econômicas, e não estou aqui elevando-as à condição de fatos determinantes e contínuos da nossa história. Acho porém possível, com revisionismos, pensarmos a nossa primeira-república como um momento em que o nosso Estado está se modernizando paulatinamente e etc. Mas entendo que sua reflexão teve como pretensão estabelecer uma comparação entre a produção historiográfica norte-americana e a brasileira. As perguntas então que eu faço são simples, e já estiram mais ou menos esclarecidas no texto: Você observa a produção historiográfica norte-americana como otimista de si própria? E você concebe a nossa como uma historiografia frustada com o nosso passado?
Por: Matheus Mendonça e Silva.