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Alex Rogério; Luiz Fernando Meneguci

OS LIVROS COMO AGENTES FORMADORES DA NOBREZA PORTUGUESA NA TRANSIÇÃO DO MEDIEVO PARA A ÉPOCA MODERNA (SÉCULO XV)
Alex Rogério Silva
Prof. Mnt. História UNESP – Campus de Franca
Luiz Fernando Meneguci Neves
Psicologia UNIFRAN

El término 'libro' designa un objeto constituido por un conjunto e hojas que contienem o no un texto y reunidas bajo una encuadernación o atadura. (BARBIER, 2005. p. 9.).
Livro: reunião de folhas impressas presas por um lado e enfeixadas ou montadas em capa. (FERREIRA, 1999, p. 430.).
           
O livro no seu primeiro significado é entendido como um conjunto de folhas sejam elas manuscritas, datilografadas ou impressas que são reunidas e organizadas de forma que se possa facilitar a leitura. Seja qual for à natureza do texto, o primeiro interesse ao escrever é registrar algo a fim de que alguém em algum momento possa ler.
Tais exemplares eram tidos como instrumentos de apreensão e ordenação do mundo e a escrita era atribuída à preservação do saber. Em Portugal, esta produção intelectual do final do século XIV e do decorrer do século XV foi relativamente diversificada e de certa forma abundante devido às condições periféricas do reino, o idioma português modernizava-se propiciando essa diversidade e o latim estava perdendo seu status em razão da não difusão entre a nobreza.
Os escritos eram considerados artigos de luxo onde tinham não só valor material, mas também valores sentimentais. As tiragens eram inexpressivas dado que antes da imprensa, o trabalho se dava por cópias individuais. Esses trabalhos primeiramente elaborados pelos oradores, onde a produção e o conhecimento permaneciam. No final do século XIV e no século XV, o livro se torna um utensílio mais familiarizado da nobreza, aumentando assim o número de bibliotecas laicas.
Após a crise de 1383-1385, onde Portugal, proclama sua independência de Castela, através da Batalha de Aljubarrota e ascende ao trono uma nova dinastia, a de Avis, fundada por D. João I. Após essa independência vemos o fortalecimento de uma produção literária com o intuito de formar da nobreza.
Um movimento de exaltação do livro e daquilo que ele proporciona ganha intensidade em Portugal. Movimento que se traduz tanto num discurso apologético, ressaltando as virtudes e virtualidades da escrita, quanto em ações efetivas no sentido de promover a produção livresca. (FRANÇA, 1998, p. 23.).
Esse movimento não se limitava somente a exaltar o valor dos livros, mas também pautava na justificativa de se preservar os saberes consequentemente nas motivações fundamentais para se escrever. Entre estas motivações se destaca a transmissão de bons ensinamentos, sobretudo de teor moral. Nesse aspecto os três mestres de Avis D. João I (1357-1433), D. Duarte (1391-1438) e o Infante D. Pedro (1392-1449), deixaram escritos onde tem por finalidade “[...] a preocupação pela reflexão sobre a educação do homem e, particularmente, sobre a formação política dos governantes e a dimensão ética do poder.” (BUESCO, 1996, p. 50.).
            Esses escritos tratam das posturas para uma formação virtuosa do príncipe, pautada no exercício das virtudes especificados nas sagradas escrituras e consequentemente e evitando os vícios, e estabelecer um modelo ideal de realeza, ou seja, se unificavam em um ideal pedagógico, com a preocupação em divulgar determinados valores e instruir os seus leitores a partilharem desses valores. Os valores defendidos além de ajudarem na tarefa de governar também eram prescrições de como alcançar a salvação.
Com o pensamento medieval enraizado na sociedade, onde a explicação do mundo passa por preceitos religiosos, os mestres de Avis nunca perderam de vista aos seus tratados a relação do homem com Deus. A pedagogia principesca tinha como base a formação espiritual, utilizando para tal, fontes de conhecimento medievais como as hagiografias, os livros de orações, alegorias, pois naquela época a verdade era aquela deixada por Deus, visto que, a principal fonte que os homens utilizavam para sustentação de seus atos e argumentos era a bíblia. Mas não só de textos religiosos e alegorias que os mestres de Avis tomaram como elementos principais para produzirem seus escritos. Buscaram também nas obras clássicas da filosofia antiga e medieval a sustentação de suas teses, de forma
Auxiliares tão ou mais férteis na edificação dos senhores eram os livros de filosofia antiga e medieval. De Aristóteles aos Santos Padres da Igreja, passando por filósofos como Cícero, Sêneca, Avicena, vários eram os grandes nomes do pensamento filosófico citados pelos medievais. A importância dos livros desses sábios advém principalmente do fato de constituírem um verdadeiro manancial de reflexões, ora fundadoras, ora fundamentadoras do pensamento dos escritores quatrocentistas portugueses. (FRANÇA, 2006, p. 67.).
Toda a produção escrita da época, embora bem diversificada, há um ponto em comum: o intuito pedagógico. A tarefa de educar ganhou espaço nos livros e uma nova finalidade: moralizar. O objetivo de tais eram as “ensinanças” nos seus diversos níveis: desde educação religiosa, aos cuidados com a disciplina, o corpo e a conduta social.
O tratado de D. João I chamado Livro da Montaria, é um tratado de caça ao javali. A caça como a montaria, ou a cetraria eram desportos muito bem vistos nesse período, pois eram distrações para não se cansar o entender e uma forma de treino para os tempos de guerra, ajudando a manter as habilidades guerreiras em tempos de paz. Mas não somente de conceitos práticos que este projeto foi idealizado, pois aspectos moralizantes foram abordados, mesmo que de modo implícito, pois, como já mencionado, o ato de caçar e cavalgar descansavam o intelecto facilitando o cumprimento das principais obrigações reais. Além disso, o rei autor também descreveu que o uso abusivo da montaria também seria prejudicial, pois, passaria a ideia de desleixo com as funções governativas e de defesa, gerando assim hábitos pouco saudáveis na alimentação, na vida religiosa, nas companhias e no bem falar. Ou seja
É assim que D. João deixa clara a sua convicção de que toda e qualquer atividade a qual o rei se dedicasse não devia nunca suplantar as responsabilidades com o governo das suas gentes e terras, antes devia ser aproveitada para o aperfeiçoamento pessoal e para a melhoria da arte de reger. Do mesmo modo, os livros destinados aos príncipes tinham de contribuir tanto para o engrandecimento dos virtuais leitores como para o proveito do reino. (FRANÇA, 2006, p. 84.).
Outro tratado de lições de como cavalgar é produzido por D. Duarte, chamado Livro da ensinança de bem cavalgar toda sela, destinado não aos reis e príncipes, mas aos cavaleiros e escudeiros, onde para além de lições de como bem cavalgar instruísse os nobres  a forma adequada de se apresentarem nos jogos e diversas celebrações da corte e o cuidado com as armas. A obra elucida alguns valores importantes na formação dos bons governantes como a fé, a esperança, a confiança a prudência, ou seja, ao lado das instruções de como os cavaleiros devem se portar diante das armas e da sela, faz menção as emoções humanas: as virtudes, os vícios, a força, o domínio do corpo, etc. Os tratados acima mencionados “[...] procuravam regrar as práticas desportivas valorizadas. Nesses tratados, percebe-se uma grande preocupação com a disciplina do corpo, principalmente nos ensinamentos das artes e ciências de bem cavalgar a caçar.” (SILVA, 2009, p. 52.).
Nesses tratados, a preocupação com a educação dos seus contemporâneos nobres é muito grande, pois através dos excertos fica nítido o direcionamento para que tipo de leitor, ou seja, os nobres, quais os proveitos de se cavalgar e caçar, comprovando assim as preocupações com a pedagogia de um ponto de vista prático, não deixando de lado a formação moral dos seus leitores.
D. Duarte escreve também outro tratado chamado Leal Conselheiro que juntamente com o de seu irmão, o Infante D. Pedro chamado Livro da Virtuosa Benfeitoria, são classificados como doutrinas da boa conduta social. Nesses livros a moralidade ganha corpo, como matéria principal em uma obra. Pois:
Aos governantes cabia desempenhar um papel previamente definido, cujo fundamento estava no cuidado consigo, ou seja, na busca de aperfeiçoamento moral e espiritual, tendo por fim o bem estar dos seus subordinados. Nesse contexto, os livros ganham toda a importância: competia às obras escritas auxiliar os reis, os príncipes e senhores na difícil missão de se conduzirem bem a si próprios para se tornarem aptos para conduzirem os outros. (FRANÇA, 2006, p. 81.).
No Livro da Virtuosa Benfeitoria como no Leal Conselheiro, o intuito é a formação dos dirigentes, fazendo-lhes conhecer seus deveres e seus privilégios devido o seu lugar na hierarquia social. Nele há a exposição de feitos louváveis e ações condenáveis de antepassados, surgindo como caminho para a formação de reis e senhores, mostrando quais caminhos seguir, de modo a desempenhar o seu papel. Mostram os atos que fazem com que reis sejam designados como virtuosos ou tidos como pecadores, no intuito de construir modelos de conduta considerados ideais.
Em um primeiro plano D. Duarte realiza em O Leal Conselheiro, uma enunciação da sociedade, com cinco estados, a saber: oradores, defensores, lavradores e pescadores, oficiais e artífices, e mesteres. A partir dessa fragmentação da sociedade, relata as competências de cada um, alertando sobre os prazeres em devaneio, recomendando sobretudo aos nobres cuidados com o corpo e a consciência. Em um segundo momento D. Duarte aconselha sobre o uso das faculdades humanas em busca das virtudes para fazer o bem, em busca da salvação, e a partir daí começa a enumerá-las, colocando em evidência também os comportamentos contrários, no intuito de construir um modelo de boa conduta.
Essa ideia de virtude e pecado se define a partir de parâmetros fixos, instituídos pelos valores morais defendidos pelo cristianismo, que se dilui nas reflexões acerca dos encargos de cada um dos Estados. Ele realiza uma analise minuciosa de quatro pontos para dissertar acerca do assunto: o que move as condutas, ou seja, se é através do entendimento ou da vontade que elas tomam forma; a qualidade das condutas, eivadas de virtudes ou vícios; qual sua resultante, o bem ou o mal; e as vantagens ou prejuízos que são propiciadas através dessa conduta. Através desses pensamentos que D. Duarte procura atingir seu objetivo pedagógico, sintetizando que a maior virtude de um homem é a lealdade.
Já o Infante D. Pedro em o Livro da Virtuosa Benfeitoria, aborda a organização da sociedade sustentada pelos senhores, sobre o fundamento ético da governação. Menciona os hábitos e costumes perpassados pelos pensamentos cristãos. Faz referência a filósofos da antiguidade, principalmente da obra De Benneficiis de Sêneca. O tratado é sobretudo dirigido aos reis e príncipes, pois eram deles a função de distribuir benfeitorias. Apresenta também os motivos nos quais os súditos deviam respeitar os reis e lhes serem fieis.
O livro tem inicio com a análise dos vocábulos que compõem o título da obra, analisando os diversos significados de benefício e suas implicações nas formas de execução. Há a construção de uma teoria da estrutura da sociedade, onde o senhor sustenta esta sociedade, pelo principio da governação. Com esse conceito do senhor sustentar a sociedade gera outro aspecto a ser analisado de que com o exercício do poder, os senhores se aproximavam de Deus, pois enquanto este regia o mundo, os reis eram responsáveis pelos seus senhorios. No tratado também há o mapeamento das condutas dos senhores e a análise do benefício como algo moral que deve ser desempenhado em busca da honra e positiva fama. Através disso, o Infante D. Pedro escreveu no intuito de encaminhar os homens aos seus afazeres fazendo com que suas ideias sejam postas em prática.
Assim, o Livro da Virtuosa Benfeitoria, configura-se como um tratado de ética religiosa e social, na medida em que informa as diversas personagens do jogo social acerca dos seus direitos e deveres. O estudo do benefício acaba por servir de pretexto para uma doutrinação mais ampla. (FRANÇA, 2006, p. 91.).
Em síntese geral, a publicação de livros em Portugal aumenta no século XV por diversas razões, fazendo com que após sua independência de Castela e ascensão da Dinastia de Avis, as publicações se intensificassem, pois, os nobres se identificavam com uma cultura livresca, onde o conhecimento é acrescentado como uma qualidade a mais dos senhores, e que anteriormente era reservado somente aos clérigos. A partir desse aprendizado dos senhores, estes escrevem para seus descendentes ou outros nobres no intuito de educar, de modo implícito em alguns, como em tratados de teor técnico, ou de forma explicita os modelos de conduta, a serem seguidos para se tornarem dirigentes virtuosos e acima de tudo, alcançar a salvação. Para a escrita de tais tratados pedagógicos são feitas referências a livros religiosos, mas também a filósofos da Antiguidade na fundamentação de seus aconselhamentos; utilizam-se também de exemplos virtuosos ou viciosos de modo a traçar um caminho ideal a seguir pelos novos governantes, ou seja, um trabalho de cunho pedagógico que visa à construção da imagem do governante na sociedade.

Referências bibliográficas
BARBIER, Fréderic. História Del Libro. Spain: Alianza, 2005.
BUESCU, Ana Isabel. Imagens do Príncipe, discurso normativo e representação (1525-49). Lisboa: Cosmos, 1996.
FERREIRA, A. B. H. Aurélio século XXI: o dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
FRANÇA, Susani S. L. O intuito pedagógico nas crônicas e nos livros didáticos medievais portugueses. Revista de Estudos Portugueses e Africanos, Campinas, v. 31, p. 23-37, 1998.
_____. Os reinos dos cronistas medievais (século XV). São Paulo: Annablume: Brasília, DF: Capes, 2006.
SILVA, Michelle Tatiane Souza e. Práticas de leitura e ensinamentos morais na corte de Avis. 2009. 103 f. Dissertação (Mestrado em História e Cultura Social) – Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2009.


4 comentários:

  1. Olá,
    Vemos que o livro fazia parte do clérigo até o século XV em Portugal , como pude perceber com o artigo, e que a partir desse século como forma de ensino foi inserido pela nobreza. Com meus estudos percebo que na Idade Média a leitura era acessível , quase somente, para homens, a mulher era excluída dos estudos. Então gostaria saber, se possível, se essa introdução do Livro em Portugal atingiu não somente homens da nobreza, mas também, mulheres, e se esses escritos eram restritos ao meio acadêmico, ou seja, era possível o acesso de forma mais "informal"?
    Att.

    Ana Eduarda Bazzo Pupim

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    1. Boa tarde Ana Eduarda, tudo bem?

      No final da Idade Média e início da época Moderna houveram diversos escritos destinados a mulheres da realeza como Regimentos, de modo a acentuar as virtudes destas para um bom relacionamento com seu reino, bem como as hagiografias que tinham um propósito moralizante. Já no tocante a difusão destas leituras em ambientes informais podemos dizer que com a atuação dos clérigos e as hagiografias era de certa forma possível fazer com que tais prescrições chegassem a população. Uma indicação de leitura interessante que trata sobre os escritos e a educação para as mulheres em finais de idade média e início da época moderna é a tese de doutoramento da Danielle Oliveira Mércuri, intitulada: OS LETRADOS CASTELHANOS NO RASTRO DAS MULHERES QUATROCENTISTAS: Da defesa e da educação delas, defendida ano passado na UNESP/Franca. Link: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/143458/mercuri_do_dr_franca.pdf?sequence=5

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  2. Olá,
    Ao longo do texto pude observar que se dar bastante ênfase em explicar as principais funções do mesmo e para quem eram escritas essas obras. Portanto gostaria de saber se durante o séc XV ocorreu algum conflito com relação a outras classes quererem utilizar essas mesmas obras.

    IGOR ROBERTO CARVALHO BRITO

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    1. Boa tarde Igor, tudo bem?

      Primeiramente, temos que levar em consideração que naquela época grande parte da população era analfabeta e o ensino era realizado muitas vezes de maneira oral, inclusive muitos ensinamentos eram propagados através dos sermões e cantigas. No tocante ao seu questionamento pelo que pude pesquisar não ocorreu nenhum conflito nesse sentido, pois esses escritos ficavam restritos aos reis como aos nobres, e mesmo que tais escritos fossem disponibilizados ao público, poucos conseguiriam ler. Mas gostei bastante do seu questionamento e eu descobrindo qualquer coisa nova sobre isso eu posto aqui! :D

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