O CARÁTER PEDAGÓGICO DA OBRA DOUTRINA PARA CRIANÇAS (C. 1274-1276) DE RAMON LLULL
Priscila Viegas dos Santos
O século XIII foi considerado segundo alguns autores como o século do apogeu do Ocidente medieval (LE GOFF, 2007), pois nele ocorreram significativas transformações sociais que contribuíram para a formação da Europa que conhecemos hoje. Este crescimento social e cultural ocorreu a partir dos centros urbanos, isto é, as cidades. Para além do crescimento urbano, o Ocidente medieval teve êxito no comércio, na questão do saber com a criação das escolas e das universidades e, por fim, na criação as ordens mendicantes, “que formam a nova sociedade e remodelam profundamente o cristianismo que ela professa” (LE GOFF, 2005: 144).
A elite intelectual era formada majoritariamente por religiosos, pois na Idade Média “a maior parte das escolas e das universidades do Ocidente foram instituições eclesiásticas ou controladas pela Igreja” (VERGER, 1999: 144). A ordem dos frades mendicantes surgiu, nesse contexto, do nascimento das universidades. Os frades mendicantes saiam às ruas e pregavam a palavra do Senhor. Um dos assuntos mais recorrentes foi o tema sobre o inferno e o martírio que inspirou muitos cristãos a saírem pelo mundo pregando a palavra de Deus. “Por esse motivo, o século XIII foi definido como “o século do otimismo” (COSTA, 2006: 4).
O período de transição da Idade Média para a Idade Moderno é considerado o momento em que os humanistas passaram a se interessar por um modelo de pedagogia. Da Antiguidade ao medievo a educação das crianças era dividida em etapas: primeira era a etapa materna que compreendia do momento do nascimento até completar sete anos, nessa face cabia a mãe o cuidado com o corpo da criança, protege-la de doenças e de qualquer deformidade no corpo da criança nos primeiros dias de vida. Decorrido algum tempo, a mãe preparava seu filho para o batismo, momento que a criança é apresentada a sociedade e em que os pais assumiam diante de todos os presentes o compromisso de dar instruções sobre os fundamentos da fé católica. (PRIETO, 2012: 92).
Sobre o batismo, Prieto escreveu que, o batismo era um momento de festa em honra a criança, os familiares costumavam fazer banquetes em que os convidados pudessem beber, comer e dançar, outras famílias montavam torneios e jogos. Mas houve aqueles que tinham opinião contraria a esse tipo de confraternização. O autor destaca a posição do autor maiorquino Ramon Llull que aconselhou que esse momento fosse para dedicação a oração, perdão de dividas do próximo e oferecer esmolas aos pobres. (PRIETO, 2012: 93).
A segunda etapa da educação da criança era da idade dos sete aos quatorze anos, nela as meninas e os meninos recebem instruções diferenciadas:
Niños y niñas reciben una educación diferente desde que cumplen siete años. La de los varones está orientada a formarles física e intelectualmente conforme a las reglas de la caballería, mientras que la de las doncellas se encamina a formarlas como esposas y madres ideales. (PRIETO, 2012: 98)
Na etapa paterna, fase essa em que a criança passa a assimilar as coisas, aos pais era dada a tarefa de ensinar os princípios morais de natureza cristã e os princípios sociais. O pai deve disciplinar o menino quando ele estiver com seu caráter formado e caso viesse a praticar algum mal, o pai deveria disciplina-lo para que ele aprendesse a permanecer no caminho do bem.
Essa fase era o momento em que os meninos eram encaminhados as escolas e universidades. A educação se dava por dois interesses: o religioso e o social. Os interesses religiosos se misturavam com o político, um dos motivos é o fato da Igreja ter sido uma instituição de grande influência social, pois segundo Verger (1999) colocou que, as instituições de ensino do ocidente em sua maioria eram eclesiásticas ou sob o controle da Igreja. Nesse viés, podemos entender que a educação cristã que o pai deveria passar para seu filho pode ser compreendida como elemento pedagógico tanto para a formação religiosa como social.
Ramon Llull foi um dos primeiros escritores peninsulares a adotar esse caráter pedagógico em seus escritos. Podemos observar isso nos quatro livros que escreveu para seu filho Domingo: “Doctrina pueril (1275), Blanquerna (1283), Libre de meravelles (1286) o Arbre de la ciencia (1292)” (PRIETO, 2012: 11). Segundo Palou, o livro Doutrina para Crianças assume o caráter pedagógico, pois sua finalidade é claramente educativa. É também um dos livros do filosofo mais conhecidos e citados justamente por ter essa característica, tal condição que levou Ramon Llull a ser conhecido como um dos primeiros “pedagogos cristianos” (PALOU: 1).
Em seu livro Doutrina para Crianças Ramon Llull escreveu sobre os mandamentos, sobre a Igreja, os dons do Espírito, Santa Maria, as Virtudes, sobre o pecado, Paraíso, Inferno e vários outros temas da fé cristã divididos em capítulos. Mas Llull não abordou apenas assuntos de caráter religioso, escreveu sobre as sete artes liberais, sobre a gramática, astronomia, a medicina, as artes mecânicas e outros assuntos sobre o que o homem deve ter conhecimento.
Em a Doutrina Llull descreveu sobre os mais diversos assuntos para que seu filho conhecesse as coisas de Deus, mas que também tivesse conhecimento sobre as ciências do homem. No entanto, o mais importante que ele tentou ensinar para seu filho foi sobre a necessidade de não perder tempo com coisas desnecessárias, mas dedicar seus dias ao louvor do Senhor, pois entendia que era importante que o pai mostrasse para seu filho como cogitar o Paraíso e o inferno, e assim ele “se acostumará a amar e temer a Deus, conforme os bons ensinamentos” (LLULL, 5). Ensinando o caminho do bem, aquele que levaria a salvação a seu filho, podemos observar que Llull segue o principio bíblico de ensinar a criança no caminho que deve andar como está escrito nas escrituras no livro de Provérbios: “Ensina a criança no caminho que deve andar, e mesmo quando for velho não se desviará dele.” Pv 22: 6.
Para Llull, o pai deveria mostrar para seu filho primeiro as coisas gerais do mundo para que depois ele pudesse entender as coisas especiais, assim também o pai deveria ensinar a criança a soletrar o que aprendeu em língua vulgar sobre os princípios e partindo da linguagem simples a crianças aprenderia sobre a gramática e o que era mais complexo. O livro Doutrina para crianças que Ramon Llull dedicou para seu filho Domingo, nele Llull escreveu sobre tudo que creditava que seu filho deveria saber sobre as ciências e a natureza de Deus, alentou que tudo que seu filho aprendesse não deveria ser maior e mais importante que ter o entendimento de Deus e conhecê-lo. Não apenas um manual pedagógico religioso, mas um livro que tratou das mais diversas temáticas sobre a ciência produzida pelo homem para que assim ele pudesse escolher qual caminho seguir.
Fonte:
Bíblia de Jerusalém. Edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus Editora, 2003.
Doutrina para Crianças (1274-1276), Ramon Llull (Trad. Prof. Dr. Ricardo da Costa- UFES). Disponível em: http://www.ricardocosta.com/sites/default/files/pdfs/doutrina.pdf
Referências bibliográficas:
COSTA, Ricardo da. Las definiciones de las siete artes liberales y mecánicas en la obra de Ramón Llull. Anales del Seminario de Historia de la Filosofía. Vol. 23 (2006): 131-164
COSTA, Ricardo da. A experiência religiosa e mística de Ramon Llull; a Infinidade e a Eternidade divinas no Livro da contemplação (c. 1274). Disponível em: http://www.ricardocosta.com/artigo/experiencia-religiosa-e-mistica-de-ramon-llull-infinidade-e-eternidade-divinas-no-livro-da, 2006.
LE GOFF, Jacques. A formação da cristandade (séculos 11-13). In.: ______. A civilização do ocidente medieval. Bauru: Edusc. 2005.
PAlOU, S. Carcias. ;Que ano escribio Ramon Llull la "Doctrlna Pueril"?.
PRIETO, Josué Villa. La educación de los niños pequeños en el âmbito familiar durante la Edad Media tardía: aspectos teóricos. Tiempo y sociedad Núm. 6, 2011-2012, pp. 79-122
VERGER, Jacques. Homens e saber na Idade Média. Bauru, SP: EDUSC, 1999.
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